É que assistir BBB é um estudo antropológico também (e principalmente). Pensemos a ideia crua do programa – colocar, sei lá, 20 seres humanos num espaço limitadíssimo, atazanar-lhes ao máximo e filmar o circo pegar fogo. A questão é que essa ideia crua é trabalhada profundamente para tornar aquilo, de alguma forma, verossimilhante.

A sociedade é formada por padrões. Ainda que achemos que somos únicos, no geral, somos todos reproduções de padrões culturais contemporâneos. Entra-se numa sala de aula de adolescentes e os grupos são absurdamente padronizados. Sempre tem o lerdão, sempre tem o engraçado, a mina que tá pouco se fodendo pra todo mundo, o gordo escroto, os excluídos, os semi-excluídos que ambicionam ser tão espontâneos quanto os populares, os populares. Eu fui professor, eu sei.

A edição passa e os padrões mudam, se atualizam. E o BBB consegue, de alguma forma, retratar os principais padrões contemporâneos com os seus participantes – ou personagens, como queira. Antigamente sempre tinha um gay, mas era sempre um cara contido. Depois tivemos Serginho. Agora temos um casal de lésbicas. A gostosa burra, o cara marrento, o adolescente cheio de energia, a menina de família.

Já tivemos o crente, o caubói, o deficiente, o cara que lê cartas de tarot, o transexual, a feministazinha que não raspava o suvaco – padrões. Tão padronizados quanto nós seríamos se lá estivéssemos, pois também pertencemos a esses padrões.

(Eu seria o maluco preguiçoso que é eliminado no quarto paredão, ou quinto, se tivesse sorte.)

E então, depois de resumir segmentos da sociedade em 20 personagens, o programa se propõe a fazer de tudo para que eles se odeiem.

E é tido como entretenimento pelo mundo inteiro.

Provas de resistência que duram mais de 24 horas – tortura televisionada -, dividir as pessoas em grupos e fazê-las disputarem por comida e conforto – os instintos mais enraizados! -, brincadeiras em que o apresentador obriga um participante a dizer quem é o mais invejoso, ou quem é o mais falso.

Imagina se você tem que olhar o dia inteiro pra cara de um maluco que disse em rede nacional que você é o mais invejoso da casa.

Não só por que ele disse que você é invejoso, mas levando em consideração o contexto também – um programa em que você tem que convencer milhões de pessoas a gostarem mais de você. Você acorda dia após dia representando um personagem que, na sua cabeça, fará milhões gostarem de você, e vem um sem vergonha e te chama de invejoso na frente de todo mundo.

Essa parada é interessante.

Toda sexta tocava o bigfone. Não falhava. Acabava o programa sexta, dava 3 minutos e o tocava o bigfone. Podia ser um bigfone ruim, um péssimo, ou um minimamente bom. Certa sexta, não tocaram o bigfone. E, sabendo que poderia vir uma parada terrivelmente ruim, 3 pessoas ficaram paradas em frente a um telefone durante 40 minutos.

(Pausa reflexiva)

Enfim. Se não provei meu ponto até aqui, não provarei mais. Nunca li 1984, não faço ideia do que o cara lá expõe, mas continuo achando interessante.

Pode-se falar mal, de entretenimento barato. E aí muda pra um filme do Woody Allen, que agrega tampouco, mas pelo menos tem uma imagem melhor entre os amiguinhos.

Pode ser tudo roteirizado – mas, ainda assim, a pessoa que o roteiriza merece os méritos por observar e reproduzir as relações humanas tão profundamente.

Pode ser nada demais. Entretenimento barato.

Mas sei lá.

uma pessoa pública

1 comentário

  1. Paulinha · março 6, 2014

    eu te eliminaria logo na primeira semana porque você sabe que sua carinha nao me agrada ne guilhermo.
    mas o post ficou ótimo.
    besitos

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