Eu sou

Eu tinha 9 anos e já comia a última batata frita pra não precisar casar. Queria alguém pra mim, é verdade, mas casamento era tão simbólico, tão pomposo, que eu simplesmente tinha vergonha de compactuar com aquilo. Era o que a sociedade queria de mim, e, ainda que completamente inconsciente disso, aquilo me dava repulsa. Eu não jogava bola, eu jogava basquete. Eu não via aquilo, nem brincava daquilo outro – eu simplesmente não queria corresponder àquilo que esperavam de mim.

Por vezes, é verdade, acabei correspondendo. São muito tortuosas as construções sociais – você realmente acha que é autêntico, que faz somente aquilo que sente vontade, mas não percebe jamais a estranha coincidência que é um grupo tão grande de pessoas ter a mesma ideia autêntica que você!

Mas aquele sentimento, aquela leve repulsa, ela sempre esteve lá. A repulsa pelos populares do colégio, a repulsa pelos modismos, a repulsa por pessoas que tem repulsas, e, principalmente, a repulsa por toda e qualquer situação que crie expectativas em cima de mim – e a eminente vontade de quebrá-las.

Coisas simples! Dizer bom dia! Me chamavam de tímido; não! Eu só não queria compactuar com aquilo! Eu nem gosto de você, ser estranho, por que devo fingir que gosto então?

Álbum da copa? O meu é do homem aranha.

Não, eu não quero dançar rouge.

Pô cara, desculpa se eu tenho 11 anos e não beijei ninguém ainda.

Percebi em certo momento da vida que era muito comum pessoas com essa repulsa. Mas delineava-se uma leve diferença: minha repulsa era natural, intrínseca quase. Como diz-se que alguém é tímido, ou agitado, eu era… eu era repulso. Repulsado.

Não os outros! Eles não pareciam tão verdadeiros, tão naturais. Aquela repulsa parecia adquirida, como se eles moldassem a própria natureza a senti-la. Era tão atraente, de repente, ser uma pessoa diferente-de-todo-mundo, que todo mundo queria ser! E eis aí a diferença: eu não queria; eu era. Eu sou.

Por vezes não. A construção social acaba tendo moldes tão bem ajustados que por vezes me perco neles. A partir do momento em que tanta gente tem repulsa, minha repulsa por ser uma pessoa com repulsas transformou minha existência em um paradoxo. A única saída transpareceu-me claramente: transito entre os padrões, reafirmando minha diferença na pluralidade infindável de características que obtenho quando me permito ser igual.

Não sou pensado – apenas sou. E, por pensar no que sou, posso me considerar pensante.

Dentre as diversas formas de categorização da arte, acho que uma das mais interessantes é a que chamo arte individual em contraponto à arte coletiva. A primeira é aquela que suscita o prazer por fomentar sensações individuais, sensações que apenas nós, seres que interpretam a peça, dizemos respeito: nossa carga cultural e simbólica nos leva a interpretar aquela arte de determinada forma, que é inerente e única a nós. A segunda, arte coletiva, é justamente o contrário: ela nos atrai por ser um acalento, um aviso de “você não está sozinho”. Não a toa muitas das artes são expressões de um Eu individual que, por se assemelhar com os pensamentos do coletivo, popularizam-se. Quanto mais íntimo, maior a sensação de conforto – não somos os únicos a nos sentir daquele jeito, afinal!

(Categorização que eu faço na minha cabeça. Os pensadores da estética e da história da arte muito provavelmente invalidariam essa minha categorização, uma vez que, a princípio, toda arte é individual. Mas foda-se eles.)

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Acabo de perceber que todas as minhas ex namoradas estão em relacionamentos duradouros e saudáveis. Mais uma vez o universo reafirma que a culpa de todos os meus relacionamentos darem errado é quase que exclusiva minha. Não existe outra explicação possível. De duas, uma: ou sou sempre o cara certo na hora errada, ou sou simplesmente o cara errado o tempo todo.

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Todo ano segue o mesmo ciclo: sinto-me feliz e satisfeito com a vida até meados de setembro, época na qual meu coração deve estar um tanto quanto carente e, por algum motivo, acabo me aproximando de alguma moça. Todos (todos) os meus relacionamentos seguem essa tônica: conheço uma moça por volta de julho-agosto, em setembro estabelecemos uma relação, lá pra novembro já terminamos. Falando com essa ceticismo parece mentira, mas não. O ciclo simplesmente se repete minuciosamente.

Esse ano quero quebrá-lo, impedi-lo, e, como não posso fazer com que meus relacionamentos não terminem em tão pouco tempo, tomo a única atitude que (a princípio) posso tomar – me afasto deles.

Essa atitude tem me deixado ainda mais antissocial do que já sou. Qualquer moça bonita e minimamente legal já acende um sinal de WARNING piscando, igual ao do Megaman x4 quando chega-se no chefão, e tomo rapidamente a atitude de me afastar.

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É a primeira vez em muitíssimo tempo que consigo dizer plenamente que estou satisfeito. Não existe aquele discurso “a vida tá boa, mas podia ter uma mocinha, né?”. Agora é “a vida tá boa, afasto qualquer filho da puta que possa estragar isso”.

Não que eu não queira relacionamentos! É claro que eu quero!

Mas sabendo estarem eles fadados ao término, dispenso sequer começá-los.

Por ora, pelo menos.

Ninfomaníaca II [2014]

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O bom desse filme novo do Lars Von Trier é que ele trouxe muitas fritações, e uma delas é justamente a razão pela qual eu comecei esse blog: ter um local para anotar minhas fritações. Justamente por elas ocorrerem à noite (o que explica o fato de todo texto ser postado de madrugada), eu as esqueço no dia seguinte. Escrevendo no blog, ainda as divido com a humanidade, e dai, quando eu morrer, as pessoas notarão que eu era um gênio.

Justamente por isso que esse texto muito provavelmente será editado à medida que eu vá refletindo mais sobre o filme.

OBS:::::: se não viu os filmes ainda, vá vê-los e depois vem cá ler.

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Eu gosto do Lars Von Trier por que ele tem o jeito dele. O cartão de visitas em todos os filmes é estampado: chocar.  E esse choque sempre se dá de uma forma repetitiva, engessada, mas nem por isso menos genial. O fato de ele ter feito filmes seguindo as regras do Dogma 95 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dogma_95) o treinaram com a habilidade inigualável de fazer roteiros complexos e profundos (o principal motivo, ao meu ver, pelo qual ele é tão pouco conhecido). O fato de ele ter abandonado o Dogma 95, por outro lado, aliaram os roteiros que já eram fenomenais às mais diversas formas de se fazer cinema.

“Como assim engessado?”. Como um broder meu sabiamente atentou, Lars Von Trier sempre se propõe a deixar claro que aquilo que está na tela é um filme, uma obra, o que o provê a liberdade de utilizar alguns recursos que em outros filmes não caberiam. O fato da história ser contada em capítulos, com títulos e numeração, por exemplo, não costuma rolar em muitos filmes, mas acontece na maioria dos dele. Também o fato de ter o formato constante e imutável de a mulher narrando a história e o cara a interpelando com digressões, os cortes, as alusões simbólicas (aquele primeiro orgasmo dela e os números 3+5, por exemplo) são alguns dos elementos que compactuam pra isso e pro estilo de Trier ser tão característico.

Mas, acima de tudo, o filme é genial pelas questões que ele levanta. Muito mais do que à igreja, o filme é um ataque claro e barulhento à moral da atualidade. Não bastando o filme ser sobre uma ninfomaníaca, o que já acho um ataque bem notável, mas ainda outros momentos, como o do pedófilo – “pera, ela pagou um boquete a um pedófilo por que ficou com pena?” e aí ela dá uma explicação absolutamente plausível e incomum pelo fato de ter sentido pena! -, ou quando ela chama o cara de “negro” e o velho a reprime, no que ela responde “a sociedade tende a proibir palavras que representem problemas que ela não consegue solucionar”.

(Não estou dizendo que o Lars Von Trier foi o primeiro a levantar essas questões. Vários filósofos já as levantaram. O mérito de Trier está em colocar essas questões, que não são simples, tão bem contextualizadas.)

Papo esse que é retomado mais à frente quando ela se apresenta no grupo de terapia. “Eu sou uma ninfomaníaca”, “aqui nós dizemos ‘dependentes’”. Mais tarde isso serve pra diferenciar Joe das demais do grupo “vocês podem ser só dependentes, eu sou ninfomaníaca. Eu sou isso. É meu desde que eu tive meu primeiro orgasmo”. Não à toa ela pensa nisso quando vê a si mesma como criança no espelho.

Há também a questão do choque, sempre presente em Lars Von Trier. Se em Anticristo eu achei que ele já tivesse atingido o ápice, nesse ele se superou. O suspense durante a cena de masoquismo é tão grande, dramático e minucioso, que torna o ato de estar assistindo a cenas de masoquismo MAIS ANGUSTIANTE do que já o é normalmente.

E o próprio final, ao meu ver, é um baita tapa na cara do telespectador. Tanto que meu primeiro comentário foi “que final cagado, né”. Depois de muitas teorias levantadas entre amigos, divido algumas reflexões: o cara se considerava assexuado, é verdade. Alguns amigos disseram que o velho reprimia a sexualidade dele. Eu acho possível, mas estou incerto. Em algum momento, a Joe fala alguma coisa e o velho a interrompe, citando Freud e dizendo alguma coisa do tipo “você está reprimindo o que você realmente é” (ela responde dizendo que “ele estava caindo no clichê”).

Achei que isso foi uma crítica bem clara à Freud e a essa história de tudo ser alguma coisa reprimida ou inconsciente. O velho sentiu vontade de enfim transar com ela por curiosidade – como ele mesmo tinha dito. Tão velho e nunca fez sexo! E ouve a história inteira de uma ninfomaníaca! De certa forma, é parecido com o pedófilo, que se excita ao ouvir a história da criança.

A subsequente reação dela é mais simples ainda: puta que pariu, eu acabei de narrar um filme de 4 horas sobre minha complexidade e você tenta me foder dormindo? E ainda argumenta “qual o problema? Você já deu pra tanta gente!”? Logo depois de eu ter dito que, puta merda, você era o único amigo que tive na vida?

A tela fica preta. Ela aperta o gatilho. Nada acontece. Ah! Ela não carregou! A pistola é automática, eles falaram disso...É o inconsciente dela, né. “Você fodeu milhares de homens”. Carrega. Atira.

Essa porra desse filme é genial.

(Percebam que em momento algum eu precisei falar sobre sexo)

As vezes eu sou subitamente acometido pelo teu cheiro, olho ao redor e não há ninguém por perto. Ninguém passando com o teu perfume, nenhuma moça que usou o teu shampoo. É o teu cheiro. Tão teu quanto mais nada pode ser e quanto qualquer outra coisa também o pode. Afinal, nada me associa tão rapidamente a você, mas não descarto também a ideia desse cheiro ser só o entorpecimento que minha imaginação constrói na eminente necessidade de reviver a tua memória.

Suponhamos que eu ache que eu não tenha defeitos. Isso, pra todo mundo, seria visto como um defeito meu. Sabemos, então, que no que condiz a defeitos e qualidades, tudo é relativo.
Fico curioso pra saber os meus defeitos pros outros. Não outros qualquer um, ja fui muito julgado por pessoas que não me conheciam e percebi que o que elas dizem em geral tem a mesma utilidade que textos de opinião no Facebook.
Queria saber o que quem é próximo a mim pensa quando eu saio do cômodo, e comenta quando eu não ouço. O que a menininha que eu chego argumenta pra si mesma para não gostar de mim. O que me torna humano, na verdade.

Nem que seja só um “você é bonzinho demais pra ser levado a sério”.

Gosto de prólogos. Imagine poder anunciar a si mesmo todas as vezes que conhecer alguém. “tudo o que será dito daqui pra frente é a minha opinião, não afirmo-a, apenas acho-a e estou disposto a ser convencido. Não me odeie por achar, tampouco queira ser convencido por mim – sei tão pouco quanto você, ainda que eu possa não te respeitar se falar besteiras intragáveis.”.

Não tenho prólogo, no entanto! Pareço, portanto, apenas um perfeito idiota levantando bobagens.

Quem sabe não é isso mesmo?

É que assistir BBB é um estudo antropológico também (e principalmente). Pensemos a ideia crua do programa – colocar, sei lá, 20 seres humanos num espaço limitadíssimo, atazanar-lhes ao máximo e filmar o circo pegar fogo. A questão é que essa ideia crua é trabalhada profundamente para tornar aquilo, de alguma forma, verossimilhante.

A sociedade é formada por padrões. Ainda que achemos que somos únicos, no geral, somos todos reproduções de padrões culturais contemporâneos. Entra-se numa sala de aula de adolescentes e os grupos são absurdamente padronizados. Sempre tem o lerdão, sempre tem o engraçado, a mina que tá pouco se fodendo pra todo mundo, o gordo escroto, os excluídos, os semi-excluídos que ambicionam ser tão espontâneos quanto os populares, os populares. Eu fui professor, eu sei.

A edição passa e os padrões mudam, se atualizam. E o BBB consegue, de alguma forma, retratar os principais padrões contemporâneos com os seus participantes – ou personagens, como queira. Antigamente sempre tinha um gay, mas era sempre um cara contido. Depois tivemos Serginho. Agora temos um casal de lésbicas. A gostosa burra, o cara marrento, o adolescente cheio de energia, a menina de família.

Já tivemos o crente, o caubói, o deficiente, o cara que lê cartas de tarot, o transexual, a feministazinha que não raspava o suvaco – padrões. Tão padronizados quanto nós seríamos se lá estivéssemos, pois também pertencemos a esses padrões.

(Eu seria o maluco preguiçoso que é eliminado no quarto paredão, ou quinto, se tivesse sorte.)

E então, depois de resumir segmentos da sociedade em 20 personagens, o programa se propõe a fazer de tudo para que eles se odeiem.

E é tido como entretenimento pelo mundo inteiro.

Provas de resistência que duram mais de 24 horas – tortura televisionada -, dividir as pessoas em grupos e fazê-las disputarem por comida e conforto – os instintos mais enraizados! -, brincadeiras em que o apresentador obriga um participante a dizer quem é o mais invejoso, ou quem é o mais falso.

Imagina se você tem que olhar o dia inteiro pra cara de um maluco que disse em rede nacional que você é o mais invejoso da casa.

Não só por que ele disse que você é invejoso, mas levando em consideração o contexto também – um programa em que você tem que convencer milhões de pessoas a gostarem mais de você. Você acorda dia após dia representando um personagem que, na sua cabeça, fará milhões gostarem de você, e vem um sem vergonha e te chama de invejoso na frente de todo mundo.

Essa parada é interessante.

Toda sexta tocava o bigfone. Não falhava. Acabava o programa sexta, dava 3 minutos e o tocava o bigfone. Podia ser um bigfone ruim, um péssimo, ou um minimamente bom. Certa sexta, não tocaram o bigfone. E, sabendo que poderia vir uma parada terrivelmente ruim, 3 pessoas ficaram paradas em frente a um telefone durante 40 minutos.

(Pausa reflexiva)

Enfim. Se não provei meu ponto até aqui, não provarei mais. Nunca li 1984, não faço ideia do que o cara lá expõe, mas continuo achando interessante.

Pode-se falar mal, de entretenimento barato. E aí muda pra um filme do Woody Allen, que agrega tampouco, mas pelo menos tem uma imagem melhor entre os amiguinhos.

Pode ser tudo roteirizado – mas, ainda assim, a pessoa que o roteiriza merece os méritos por observar e reproduzir as relações humanas tão profundamente.

Pode ser nada demais. Entretenimento barato.

Mas sei lá.

uma pessoa pública