A questão é: eu costumava colocar as mulheres em um pedestal. Por quê? Talvez por que vivemos numa sociedade que divide os gêneros por atitudes; a mulher é sensível, tem sensações diferentes, tem desejos e anseios dinâmicos e mutáveis. O homem não: o homem é sempre o homem. A imagem que temos de homem é fixa; a da mulher não, é variável.

Isso é o que me disse a sociedade. Ela me disse isso quando uma mãe vive bancada por um pai, quando cavalheiro é o homem que paga o jantar e abre a porta, quando assisti Titanic e quando li Romeu e Julieta. Quando também a mulher não pode ter o mesmo ímpeto sexual de um cara, ou quando, por fim, a mulher carrega a imagem de traída, enquanto o homem, a de traidor.

“Elas, afinal, são seres diferentes. São puras, mas ardilosas. Submissas, mas complexas. Ainda assim, não sei lidar com elas.”, pensava. Não sabia mesmo. (Não sei, inclusive)

Hoje não mais as ponho num pedestal. Sei lá o que mudou, só sei que as vejo como seres humanos comuns: tão sujeitas ao desprezo como todos os demais. Também, eventualmente, sujeita à simpatia. Ainda mais se for bonita.

Afinal, me desculpem as feias – de alma, de rosto, de cérebro –, mas beleza é fundamental.

Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.

(ALBA, Sebastião)

***

Sim, minha felicidade quer fazer feliz,
Toda felicidade quer ser feliz!
Querem vocês colher minhas rosas?

Terão de curvar-se e esconder-se
Entre rochas e espinhos,
E com frequência lamber os dedinhos!

Pois minha felicidade é traquinas!
Pois minha felicidade é maldosa! —
Querem mesmo colher minhas rosas?

(“Minhas Rosas”, Friedrich Wilhelm Nietzsche em “A Gaia Ciência“)

Naked [1993]

“”Naked” é forte em todos os seus sentidos: abordagem, elenco, estética e diálogos. E principalmente, forte em conseguir fazer tudo isso funcionar junto. É um convite para um mergulho nas profundezas humanas, nas entranhas de um ser desprovido de pudor, nu e transparente, sem capa protetora. Johnny é um personagem incrível, quase inacreditável. Sua mente vaga a esmo pelas ruas de Londres, seu niilismo ataca qualquer viajante que trombe por perto, suas dúvidas transbordam em discursos existencialistas. “Naked” parece mostrar que nós, personagens da vida, vivemos quase como um castigo, arrastando a carga de sermos errados e possuímos a incapacidade de evoluir. Indaga o fim do mundo, propõe a transcendência… Tudo explorado com ironia, na base das contradições do pensamento.”

– Diana Seelaender

Legendas
Torrent

Los Hermanos sempre foi uma banda que eu pensava “não gosto, mas se um dia eu prestar atenção, posso acabar mudando de ideia.”

Eis que tive uma namoradinha cuja banda favorita era justamente eles. Pensei comigo mesmo: é agora. Era hora de deixar a preguiça de lado e tentar, nem que penosamente, entender aquilo.

Demonstrava, assim, interesse não só pela banda, mas muito mais pela moça. Talvez aquilo a fizesse gostar mais de mim, quem sabe. Só sei que poucas vezes me esforcei tanto pra gostar de uma banda…

E consegui! Ouvi dois discos e gostei de, sei la, 4 músicas. Não das músicas, é verdade, de alguns versos chicletes que me perseguem constantemente.

É o mundo que anda hostil.

Pois é, não deu.

Deixa assim, como está, sereno.

Aponta pra fé e rema.

Clareia a minha vida, amor, no olhar.

 A namoradinha se foi, mas deixou rastro, tal como todas as pessoas – as melhores e as piores – o deixam.

Se eu gosto de LH? Não, definitivamente não. Eis um rastro que não preciso seguir. Como eu disse, eles que me perseguem.

(E tem Lisbela, que pertence àquele conjunto de músicas que instigam aquelas lembranças recentes demais para serem vistas com saudosismo, mas velhas o suficiente para não entristecerem com a saudade)

(Esse texto já tem um mês. Esqueci que ele existia no celular.)

Eu sou um espírito muito mais observador do que participativo. Se você está numa conversa e alguém diz algo, o primeiro reflexo é pensar se concorda ou não com o que é dito. O segundo reflexo é refletir sobre aquilo e formular uma resposta. Tudo isso, é claro, numa equação sináptica que demanda alguns poucos milésimos de segundo, pois vivemos em tempos de conversas rápidas e eloquentes.

Por isso, talvez, eu seja observador. Ao invés de focar a conversa em mim, no meu ego, no meu concordar ou não, eu apenas observo e tento entender os caminhos que levaram a pessoa a chegar àquela conclusão. Tento entender, independente de eu concordar ou não, os meandros e as relações que tornaram aquela pessoa adepta daquilo que ela diz, despido da responsabilidade de responder ou julgar certo ou errado.

E as rodas de conversa se formam, e as mesas de bar se enchem, e eu apenas observo as pessoas. Meu maior problema, e talvez maior virtude, é que eu observo a mim mesmo diferente de como as pessoas me observam. Ao sair de casa, me olho no espelho e vejo um Eu. No espelho do elevador, já sou outro. No reflexo do celular, um terceiro. A luz, o ângulo, o ambiente: nunca consigo olhar a minha cara e ver a mesma de antes.

Não sei, portanto, se sou bonito ou não. No espelho de casa pareço bastante, mas no do elevador nem tanto, no do celular, então, que moleque feio! E nas conversas, então? É fácil ficar calado e observar os demais, mas como eles me observam? Como um silencioso que por vezes afere algum sopro de sabedoria, ou apenas um lesado?

Minha completa ignorância sobre o que eu aparento – entendam: sei exatamente o que sou; não faço ideia do que aparento ser – alicerça minha autoestima, que quando não ínfima, cambaleia mais que bêbado de manhã.

Gosto de pensar que estou evoluindo. A sabedoria vem do silêncio, dizem, e a certeza se segue à dúvida. Mas por vezes essa completa inaptidão nos relacionamentos me faz pensar que trilho um caminho a largas passadas pra ser um eterno solitário.

sou essa alma inacabada a construir