De repente.

Eu já fui muito objetivo. Procurava a utilidade em todas as coisas: se fosse ver um filme, que fosse histórico ou documentário. Se fosse ler um livro, que fosse um clássico. Se fosse ver uma série, que tivesse um embasamento histórico. Tudo precisava ter a sua utilidade no panorama geral da vida. Até que, de repente, percebi a relatividade do conceito de útil: tudo é inútil perante a morte; tudo é útil se preenche a vida.

Eu já fui muito imediatista. Se estava triste, precisava fazer algo quanto a isso. Se estava feliz, precisava explorar ao máximo. Se estava com saudade, precisava saná-la. Até que, de repente, aprendi a lidar comigo mesmo e a ter calma, e percebi que a vida não nos dá nada que não possamos suportar; e, se der, haverá sempre uma opção.

Eu já fui muito calculista. Acordava 6:50, tomava um banho de 5 minutos, tomava café em 10, me arrumava em 5, chegava na escola 15 minutos atrasado e dormia até o fim do primeiro tempo, dali a 30 minutos. Até que, de repente, percebi a relatividade do conceito de tempo: o passado é só uma memória e o futuro ainda não existe; só há o presente. Posso me atrasar por ter demorado mais no banho ou dormido um pouco mais – quem liga? O que são 5 minutos, perante a infinidade de momentos de uma vida?

Eu já fui muito triste. Ficava triste pelo que acontecia e pelo que não acontecia. Me entristecia pelo que ia acontecer e pelo que nunca aconteceria. Me entristecia por saudade, me entristecia por maldade. Até que, de repente, aprendi a lidar com a tristeza: percebi que a existência dela não é de todo mal, afinal, ela serve para nos ensinar a valorizar a felicidade. Sem tristeza, não há felicidade – há vazio. Hoje, abraço a tristeza. Se ela é a única que me faz companhia certa vez, pelo menos não estou sozinho.

Eu já fui muito certo de tudo. Certo do que eu era, certo do que eu não era, certo sobre tudo. Me achava esperto – ora bolas, tinha passado no vestibular! Até que, de repente, agi de formas que nem eu mesmo esperava; aconteceram coisas que eu nunca preveria; me apaixonei por quem eu nunca me apaixonaria e desprezei quem não devia. E percebi, então, que não existe nenhuma certeza nessa vida além da efemeridade dela. Eu não sou nada e, portanto, posso ser tudo.

Até quando?

Aí eu já não estou certo.

***

“De repente, você vê que aprendeu várias coisas. Mas não foi de repente, foi aos poucos. “De repente” não quer dizer que você aprendeu rápido. Quer dizer que você não percebe que está aprendendo, até que aprende.
(…)
De repente, você se sente cansado de tanto aprender quando, na verdade, você está é cansado de estar rodeado de gente que não aprendeu porra nenhuma. Não te preocupa. Todos aprendem, cada um a seu tempo. O problema é que alguns demoram tanto que acabam morrendo antes da primeira aula.”

– Lucas Silveira

***

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Soneto de Separação – Vinícius de Morais

1 comentário

  1. QueenB · setembro 5, 2014

    Texto maravilhoso!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s