Estamos aqui parados a tanto tempo só falando e falando e falando como se essa fosse realmente a coisa que mais queremos fazer, como se nas últimas horas o único pensamento firme e latente não fosse se ela vai me beijar quando eu beijá-la ou se ele não me beijar logo – ou “espero que ele não me beije”, quem sabe , eu nunca sei o que você realmente está pensando. Entrar no cinema, nós precisamos é entrar logo naquela sala de cinema que vai abrir daqui a alguns instantes e então estaremos imersos numa escuridão tão densa que com ela sumirá nossos anseios e vexames, e enfim estenderei o braço, e enfim te fitarei em silêncio por instantes, e enfim você vai me olhar de volta e ficar em silêncio olhando pra mim com a resposta estampada no mais fundo poço da tua íris se eu posso ou não ir em frente, e enfim todos os pensamentos desimportantes que atravancam nossa coragem vão sumir como se fossem um alarme de carro acionado na madrugada que enfim é desligado.

Eu me pergunto, então, por que é que nós estamos aqui, parados, só falando e falando, encenando em dupla esse texto improvisado cheio de rabiscos, cheio de coisas que não deviam ser ditas e coisas que deviam ser ditas mas não foram, nos expondo ao ridículo e ao julgo, nos expondo à possibilidade de pisarmos fora do tablado e cairmos na plateia, de onde nosso corpo estirado apenas observará o espetáculos das cortinas se fechando e do outro partindo, então você coça a bochecha e comenta alguma coisa sobre o filme que a gente vai ver, mas eu não me interesso pelo filme nem pelo comentário, eu me interesso pelo teu rosto tão cuidadosamente delineado e interpretado pelos meus olhos, e eu agradeço à Deus, ou aos meus pais, ou ao cosmos, ou a Nietzsche, eu agradeço à força que de todas as coisas no mundo e de todos os tempos com seus milhões de minutos, possibilitou que estivéssemos compartilhando esse juntos, comigo olhando e interpretando esses traços do teu rosto que já são bons o suficiente só por existirem, bons pra mim, principalmente, que me sinto tão bem, tão bem! só de vê-los assim de perto e poder – dentro do cinema – tocá-los.

Eu hesito, tu hesitas. Continuamos então nessa malemolência sentimental de apenas aproveitarmos o fato da existência do outro, como uma história que mal nos contemos para saber o final mas ainda nos entregamos ao seu desenrolar, pois sempre fomos desse tipo de curiosos malemolentes que sempre tem dúvidas mas esperam que as respostas venham até nós sem que tenhamos que fazer lá muito esforço.

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