Eles estavam conversando sentados de boa – ele, ela e algumas outras pessoas. Até que chegou aquele moleque. Ele gostava dela, ela gostava dele, tava rolando um clima, aquele cortejo adolescente, sabem, mas aquele moleque chegou pra atrapalhar. Ele já havia visto aquele moleque outras vezes – a princípio, estranhara no quão cruel a genética pode ser com algumas pessoas. A sociedade não exige tanta coisa pra te aceitar bem! Só que você seja ligeiramente bonito, sociável e inteligente. Mas quando ele viu aquele moleque teve pena de todo o grupo de pessoas que, como aquele moleque, falhavam nessas três características.

E então chegou o moleque, e ela foi falar com ele. Era um grande corredor com o chão cinza grafite e as paredes por vezes amarela, por vezes branca. Ela e aquele moleque foram pro fundo do corredor conversar alguma coisa até que aquele moleque encontrou com um amigo e os três se juntaram.

Ele continuou conversando com aquelas algumas outras pessoas, ainda que vez ou outra espichasse de rabo de olho para ver o que que ela e aquele moleque estavam fazendo. Num desses rápidos exames, percebeu que aquele moleque tinha pegado o celular dela e entregado pro amigo. Este, com seus aproximadamente 1,80m, deu um ligeiro pulo e o colocou em cima da parede, a qualtinha um buraco no seu topo para o basculante que não estava lá por algum motivo.

Ela se desfez. Com sua voz sussurrada, meio como se estivesse o tempo todo falando em falsete, pediu para que eles o devolvessem e não brincassem assim com ela. A cena era misto de tristeza com adorabilidade. Aquele semblante incomodado e aquela voz pedindo “por favor! devolve meu celular!” ecoando daquele ser humano que ele gostava tanto eram os encarregados pela parte adorável. Ele não gostava do sofrimento dela – pelo contrário, gostava do fato de que ela estava tão bem que seu maior sofrimento era o de ser vítima de uma brincadeira idiota. A tristeza, é claro, estava relacionada àquele moleque, que falhara mais uma vez na única exigência que a sociedade fazia para com ele, que era a de não ser um completo desperdício de carbono.

Ele não entendia como ela ainda podia ser amiga daquele moleque. Ficou inconformado e, numa explosão de adrenalina, levantou-se, foi até o fim do corredor e se dirigiu àquele moleque com um “cara, qual o seu problema?”. “Tamo só brincando, cara”, aquele moleque respondeu, “tamo vendo dali de trás e ela não parece que tá se divertindo”, ele disse enquanto dava um pulo esforçado – diferente do outro, ele tinha apenas 1,75m – e recuperava o celular.

Instaurara-se um clima esquisito. Por que ele tinha feito aquilo? Não teria sido demais? E se eles estivessem só brincando? Ele se sentiu meio que aquele menino idiota que aparta a briga no intervalo do colégio na quinta série. Mas o semblante triste dela o fizera tão mal! Na briga do colégio não tem nenhuma menina que ele goste tanto…

Retornou, então, à consciência, e percebeu que a última cena não passara de um devaneio: ainda estava sentado com as outras pessoas observando impassível enquanto aquele moleque e o amigo maltratavam-na. Não sabia como agir.

Então apenas não agiu.

Aquele moleque se compadeceu e a entregou o celular. Ela e aquele moleque voltaram a conversar. Poucos dias depois, namoraram.

Ele não sabia se a culpa era dele ou daquele moleque.

Um comentário em “

  1. Deuses do céu, meu caro. Sua escrita lembra muito a minha, muito mesmo. Principalmente na construção desta crônica. Eu tenho uma perfeitamente igual.
    Adorei o seu blog, vou acompanhá-lo, e gostaria muito de conversar a respeito.
    Até mais.

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