Buguei.

Lembro que quando eu era mais jovem, numa sexta à noite chata, ou num sábado vazio, ou numa segunda feira estudando pra prova do dia seguinte, ou até mesmo quando meus pais não me deixavam ir pra algum lugar, um dos meus pensamentos mais constantes era que, quando eu fosse mais velho, a vida seria muito melhor.

Não que eu fosse triste! Mas eu sempre imaginava: um dia pode ficar melhor. Acontece, todo mundo imagina isso. Idealiza riqueza, ou liberdade, ou que as pessoas deixem de me encher o saco e eu possa realmente fazer o que me der na telha, ou até mesmo uma namoradinha.

É a eterna busca pela felicidade. Idealizar a vida com uma realidade e dai tchum: buscar por ela. Acontece que perante todos os momentos da vida a gente nunca consegue ser feliz o suficiente pra deixar de achar que pode ficar melhor.

E eu acho que eu buguei. Tava numa sexta à noite em casa e percebi: eu estou perfeitamente satisfeito em estar aqui hoje, do jeito que estou, fazendo o que estou fazendo.

Ora, é claro. Sexta à noite as pessoas só vão pra festinhas, e, pessoalmente, eu já to de saco cheio de festinhas. Mas aí no sábado esse sentimento se repetiu. E na segunda, e na semana inteira. E eu percebi que eu já tava me sentindo assim há um tempo. Era isso.

É isso.

É, é isso.

A vida é isso.

Ser feliz é isso, eu acho. Não é se resignar com ela e simplesmente esperar pela hora em que ela vai ficar boa. É conseguir entender que, o que vier, pode ser lucro, pode ser uma merda, mas independente de tudo, você vai estar satisfeito com ela.

Aí vem o bug: você além de entender, precisa realmente estar satisfeito com ela.

E eu tô bugado.

Pode ser que amanhã eu religue e não esteja. Sempre tem uma pessoa pra assoprar teu cartucho e fazer o bug passar. (Sempre tem uma brisa).

Mas num mundo em que tanta gente passa a vida inteira idealizando e sequer chega a aprender o que é estar satisfeito, eu já fico contente de ser um cartucho que de vez em quando dá uns bugs.

Lembro que com uns 7 anos eu gostava de uma tal de Geovana. Ela era da minha sala, lá na… primeira série, ou segunda. A forma como eu me relacionava com ela era muito simples: eu não me relacionava com ela.

Minha paixão se devia única e exclusivamente ao fato dela ter um jeito fofinho e um rosto não tão feio, e eu gostar de olhá-la de vez em quando. Aí eu conheci a Priscila. A Priscila, além de ser fofinha e bonitinha, ainda era animada! diferente da Geovana, que era paradinha, paradinha. Tendo em vista o grande sucesso que eu conseguira com a antecessora, adotei a mesma tática com a jovem Priscila: não fiz absolutamente nada pra me aproximar.

A paixão se tornou tão real que ela tinha até a própria música:

Eu lembro de ouvir essa porra no carro dos meus pais e me comover absurdamente, papo de ter que segurar o choro. Foi um bom dia aquele: estava no carro indo pra uma festa de aniversário de um amiguinho. Era uma boa festa, aguardada, a turma inteira ia.

Lembro que mais tarde – minha memória distante é feita em flashes abruptos – estava num túnel, desses de festa de criança, que ia dar em um tobogã que caía numa piscina de plástico. Acontece que o túnel tinha um labirinto, por que ele durava uns 3 andares (as festas de criança eram grandes antigamente, ou eu que era muito pequeno), e enquanto eu desbravava esse labirinto com um amigo highlander, encontrei com Priscila indo no caminho oposto.

Ó céus! Contato direto, aproximação! Que medo me deu de falar com a Priscila. Meu amigo, fanfarrão e, como já dito, highlander, disse “oi Priscila, tudo bem?” e Priscila deve ter falado alguma coisa sobre a amiga dela que tinha vomitado e por isso elas estavam saindo do túnel – o que foi preocupante, pois estávamos andando ajoelhados naquele túnel, e se tivesse vômito, decerto nos acarretaria problemas.

Estava tão tímido que nem consegui falar com Priscila e acabei – por acaso – mantendo a fidelidade à infalível tática: não obtive a menor aproximação com a jovem. Voltei pra casa perfeitamente satisfeito.

Eram bons aqueles tempos.

Foi um bom dia.

Maurício andava pela rua com o ar de que alguma coisa tinha acontecido e só ele não percebera ainda. Como numa final de campeonato de futebol,  ou no dia seguinte ao do fim da novela. Olhava para os lados e via as pessoas andando apressadas, desconjuntadas, até dando pequenas corridinhas. Não eram muitas: por algum motivo assustador, as ruas estavam vazias, apenas poucas pessoas precisando se locomover rapidamente.

Olhou de soslaio para o lado e viu um carro freando dramaticamente numa esquina. Uma mulher saía correndo dele, e as pessoas ao redor se aproveitaram da descarga de adrenalina que aquela cena havia injetado na situação e começaram a correr também – cada uma seguindo seu caminho.

Via alguns carros, poucos ligados, a maioria com pessoas dentro deles estacionados. Alguns, nas ruas menos iluminadas, podia ver que tremiam. Os hotéis estavam cheios todos, mas em muitos sequer havia alguém na portaria. Passava na frente de um quando o olhou distraído e viu uma faxineira, empregada do hotel, sentada num banco da recepção com o porteiro. Era chique – o porteiro usava terno, gravata e tinha até um paninho no bolso do blazer. A moça, faxineira, é verdade, mas bonita também, com uma elegância peculiar única das pessoas que são felizes. Ambos conversavam de mãos dadas e sorrisos tímidos no canto da boca.

Continuou andando, já nem sabia mais pra onde. Provavelmente um meteoro cairia na cidade, ou uma dessas empresas de energia nuclear teria dado merda, ou um tsunami até. Olhou rápido para um bar e viu uma mesa de velhos, todos com camisas dos seus times de futebol, tomando um copo de cerveja e rindo com os amigos. Aproximou-se dali e pode ver, dentro do bar, uma TV ligada no jornal: os dois âncoras, um homem e uma mulher, ele com toda a calma e roboticidade comum aos âncoras de jornal, ela com a timidez das mulheres felizes e pegas de surpresa, protagonizavam um pedido de casamento.

Diante daquela cena, todos os velhos sentados à mesa fizeram silêncio, pegaram suas carteiras e, observando uma foto 3×4 que carregavam ali, transpareceram uma leve comoção. A cena lhe pareceu um tanto estranha pela instintividade – para aqueles homens, o ritual foi como comemorar por um gol ou fechar os olhos ao dormir. Foi então que Maurício percebeu que todas as pessoas que estavam em pé corriam, enquanto todas as sentadas estavam calmas. Procurou por um banco para ver se tinha alguma coisa a ver e, ao sentar em um que achou num canto escuro, percebeu que não, não tinha nada a ver.

Levantou-se e saiu do bar procurando por alguma explicação. Passou por uma praça, onde uma cena lhe espantou: viu dois casais, um hetero e um não. Os dois conviviam, não juntos, é verdade, pois cada casal estava unicamente intrigado com a própria conversação, mas em plena harmonia com o outro.

Passou em frente a uma igreja abarrotada de pessoas. Ora, pensou Maurício, é claro! “Vamos todos morrer e só eu não me liguei disso”. Se aproximou para ver se conseguia alguma informação. Percebeu o quão estranho seria perguntar “por que você está aqui?”, mas a situação toda era tão estranha que não havia outra alternativa.

– Por que – respondeu a primeira idosa – eu aprendi a amar.

Aquilo lhe deu um baque. “Ora bolas! Esses religiosos sempre falando de amor!”

Saiu da igreja e já começou a ficar um pouco desesperado. A estranheza dos últimos instantes lhe fizera perceber  que, de fato, alguma coisa estava errada e só ele não sabia o que era. Continuou andando já sem saber para onde, até que percebeu que aquele lugar não lhe era de todo estranho: frequentara-o alguns meses antes, quando uma ex namorada morava ali. Depois que terminou com ela, percebeu que não havia mais motivos para voltar ali, apesar de ainda gostar do lugar. Tinha um pequeno parque um quarteirão depois da casa dela, onde ele se sentou e esperou pelo evidente apocalipse que, era claro, se aproximava. O céu estava com nuvens densas e escuras, mas o sol se pondo por trás delas dava uma coloração bonita ao fim da tarde.

Maurício encarou o chão por alguns instantes, desnorteado, e, quando olhou pra frente, pode ver que sua ex se aproximava andando rapidamente. Sentou-se do lado dele, segurou-lhe as mãos, e disse:

– Ainda bem que você me ligou.

– Eu… eu te liguei? – perguntou assustado, pois não se lembrava de nada de mais de uma hora atrás.

– Sim, seu idiota. – ela respondeu com um sorriso estampado – eu também… eu também ainda te amo.

Aquilo fez Maurício entender tudo. Era claro! Evidente!

O amor enfim começou a funcionar.

De repente.

Eu já fui muito objetivo. Procurava a utilidade em todas as coisas: se fosse ver um filme, que fosse histórico ou documentário. Se fosse ler um livro, que fosse um clássico. Se fosse ver uma série, que tivesse um embasamento histórico. Tudo precisava ter a sua utilidade no panorama geral da vida. Até que, de repente, percebi a relatividade do conceito de útil: tudo é inútil perante a morte; tudo é útil se preenche a vida.

Eu já fui muito imediatista. Se estava triste, precisava fazer algo quanto a isso. Se estava feliz, precisava explorar ao máximo. Se estava com saudade, precisava saná-la. Até que, de repente, aprendi a lidar comigo mesmo e a ter calma, e percebi que a vida não nos dá nada que não possamos suportar; e, se der, haverá sempre uma opção.

Eu já fui muito calculista. Acordava 6:50, tomava um banho de 5 minutos, tomava café em 10, me arrumava em 5, chegava na escola 15 minutos atrasado e dormia até o fim do primeiro tempo, dali a 30 minutos. Até que, de repente, percebi a relatividade do conceito de tempo: o passado é só uma memória e o futuro ainda não existe; só há o presente. Posso me atrasar por ter demorado mais no banho ou dormido um pouco mais – quem liga? O que são 5 minutos, perante a infinidade de momentos de uma vida?

Eu já fui muito triste. Ficava triste pelo que acontecia e pelo que não acontecia. Me entristecia pelo que ia acontecer e pelo que nunca aconteceria. Me entristecia por saudade, me entristecia por maldade. Até que, de repente, aprendi a lidar com a tristeza: percebi que a existência dela não é de todo mal, afinal, ela serve para nos ensinar a valorizar a felicidade. Sem tristeza, não há felicidade – há vazio. Hoje, abraço a tristeza. Se ela é a única que me faz companhia certa vez, pelo menos não estou sozinho.

Eu já fui muito certo de tudo. Certo do que eu era, certo do que eu não era, certo sobre tudo. Me achava esperto – ora bolas, tinha passado no vestibular! Até que, de repente, agi de formas que nem eu mesmo esperava; aconteceram coisas que eu nunca preveria; me apaixonei por quem eu nunca me apaixonaria e desprezei quem não devia. E percebi, então, que não existe nenhuma certeza nessa vida além da efemeridade dela. Eu não sou nada e, portanto, posso ser tudo.

Até quando?

Aí eu já não estou certo.

***

“De repente, você vê que aprendeu várias coisas. Mas não foi de repente, foi aos poucos. “De repente” não quer dizer que você aprendeu rápido. Quer dizer que você não percebe que está aprendendo, até que aprende.
(…)
De repente, você se sente cansado de tanto aprender quando, na verdade, você está é cansado de estar rodeado de gente que não aprendeu porra nenhuma. Não te preocupa. Todos aprendem, cada um a seu tempo. O problema é que alguns demoram tanto que acabam morrendo antes da primeira aula.”

– Lucas Silveira

***

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Soneto de Separação – Vinícius de Morais

Recordarei mas mesmo assim sei que não vai querer
Te chamarei porque sei que não responderá
Como me faz rir agora pensar em você como um jogo
e percebendo que eu te perdi
Te tiro uma outra foto.
Porque, pequena, você poderia escapar das minhas mãos.
E com a distância, os dias se tornarão anos.
Você se esquecerá de mim.
Mas quando chove, os perfis e as casas me lembram você.
(…)
Reconheci o teu olhar em um desses que passam
Mesmo que estivesse aqui, te sentiria distante.
O que pode significar se sentir pequeno
Quanto maior o sonho, maior o pesadelo.
Somos filhos de mundos diversos, de uma só memória
Que apaga, desenha e destrata a história
E você se esquecerá de mim
Quando chove, os perfis e as casas me lembram você.
E será belíssimo
Por que a alegria e a dor tem o mesmo sabor com você
Eu queria apenas que a noite passasse rápido
E tudo aquilo que você tem de mim não voltasse.

E ti scorderai di me
Quando piove i profili e le case ricordano te
E sarà bellissimo
Perché gioia e dolore han lo stesso sapore con te

 

Estamos aqui parados a tanto tempo só falando e falando e falando como se essa fosse realmente a coisa que mais queremos fazer, como se nas últimas horas o único pensamento firme e latente não fosse se ela vai me beijar quando eu beijá-la ou se ele não me beijar logo – ou “espero que ele não me beije”, quem sabe , eu nunca sei o que você realmente está pensando. Entrar no cinema, nós precisamos é entrar logo naquela sala de cinema que vai abrir daqui a alguns instantes e então estaremos imersos numa escuridão tão densa que com ela sumirá nossos anseios e vexames, e enfim estenderei o braço, e enfim te fitarei em silêncio por instantes, e enfim você vai me olhar de volta e ficar em silêncio olhando pra mim com a resposta estampada no mais fundo poço da tua íris se eu posso ou não ir em frente, e enfim todos os pensamentos desimportantes que atravancam nossa coragem vão sumir como se fossem um alarme de carro acionado na madrugada que enfim é desligado.

Eu me pergunto, então, por que é que nós estamos aqui, parados, só falando e falando, encenando em dupla esse texto improvisado cheio de rabiscos, cheio de coisas que não deviam ser ditas e coisas que deviam ser ditas mas não foram, nos expondo ao ridículo e ao julgo, nos expondo à possibilidade de pisarmos fora do tablado e cairmos na plateia, de onde nosso corpo estirado apenas observará o espetáculos das cortinas se fechando e do outro partindo, então você coça a bochecha e comenta alguma coisa sobre o filme que a gente vai ver, mas eu não me interesso pelo filme nem pelo comentário, eu me interesso pelo teu rosto tão cuidadosamente delineado e interpretado pelos meus olhos, e eu agradeço à Deus, ou aos meus pais, ou ao cosmos, ou a Nietzsche, eu agradeço à força que de todas as coisas no mundo e de todos os tempos com seus milhões de minutos, possibilitou que estivéssemos compartilhando esse juntos, comigo olhando e interpretando esses traços do teu rosto que já são bons o suficiente só por existirem, bons pra mim, principalmente, que me sinto tão bem, tão bem! só de vê-los assim de perto e poder – dentro do cinema – tocá-los.

Eu hesito, tu hesitas. Continuamos então nessa malemolência sentimental de apenas aproveitarmos o fato da existência do outro, como uma história que mal nos contemos para saber o final mas ainda nos entregamos ao seu desenrolar, pois sempre fomos desse tipo de curiosos malemolentes que sempre tem dúvidas mas esperam que as respostas venham até nós sem que tenhamos que fazer lá muito esforço.

Existe um trecho de Nietzsche que diz mais ou menos que todas as atitudes são tomadas visando um benefício próprio. Isso pode parecer óbvio a princípio, mas cita-se uma situação determinada: por que damos esmola a um mendigo? “Para ajudá-lo”, pensa-se. O que Nietzsche argumenta – ou pelo menos foi assim que eu entendi, interpretei e gostei – é que o fazemos por que a situação do mendigo nos faz mal, dá-nos asco, dá-nos incômodo, e ao darmos uma esmola para ele, nosso subconsciente aceita que tenhamos voltado ao estado normal de conforto.

Nos incomodamos com a mendicância e iludimos uma situação que satisfaça a volta da comodidade: dar a esmola. Ao darmos a esmola, nos sentimos bem conosco mesmos, e é essa busca pelo benefício próprio que rege nossas ações, ainda que muitas vezes inconscientemente.

Lembro de ter comentado isso com algumas pessoas e elas terem discordado. Me parece absurdamente plausível, e reforço esse ponto de vista quando vejo o sucesso de coisas como:

Que tipo de interesse doentio há na cabeça de tanta gente em ver pessoas absurdamente sofridas lendo problemas de muito menos sofridas? Está expondo a tristeza alheia – dos haitianos, no caso – e isso, por algum motivo, interessa, intriga, instiga que as pessoas o vejam e compartilhem. Não é a toa que no final do vídeo ele ainda deixa meio subentendido “agora que você tá comovido, levanta essa bunda do sofá e nos dê dinheiro”. Ele te deixa mal para te dar uma possibilidade de satisfação logo em seguida.

Eu não sei vocês, mas eu acho que isso é tão interessante por que me faz pensar que, tendo em mente a tristeza alheia, nos comprazemos por não sermos tão tristes quanto eles. Ficamos felizes, em alguma instância, pelo outro ser triste, pois inventamos uma satisfação própria para isso.

 

Tentei formular em uma frase um motivo plausível para Essas fotos serem tão famosas e só consegui fazer esse texto.