Esses dias, acometido por mais uma dessas insônias que rolam vez ou outra, ficou muito tempo olhando o teto do seu quarto. Só então percebeu que estava claro. Não por que o sol nascia ou por que alguma lâmpada estava acesa, mas por que as luzes da rua entupiam o quarto com fiapos de cor laranja, e a televisão com aquela estável luz vermelha, e os estabilizadores verdes e o celular na tomada, tudo compactuava para que o quarto estivesse  com uma penumbra multicolorida que delatava os contornos de tudo o que ali continha.

Se perguntou se conseguiria simular, naquele lugar, às 3:45 da noite, um ambiente escuro. Não podia ser tão difícil! Fechou as janelas, desligou os estabilizadores, tirou o celular da tomada. Ainda via. Um resquício de luz ainda preenchia o quarto vinda da janela, que era parcamente tampada pela cortina de pano fino.

Ficou ligeiramente desanimado. Imagine como seria ter uma noite de sono sem nenhum resquício de luz, se o cérebro não se sentiria mais confortável assim! Imaginou que nunca poderia simplesmente se enfiar no quarto e desaparecer na escuridão. Imaginou que nunca poderia confundir se estava de olhos abertos ou fechados – não sabia nem se era possível.

Levantou da cama e saiu do quarto. Demorou muito tempo para encontrar o interruptor do corredor e quase bateu com a cabeça na parede na busca. Acendeu e apagou novamente a luz. Percebeu, então, que estava na escuridão plena de um corredor com todas as portas fechadas e sem janela.

Tinha sumido do universo.

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