A maioria dos meus textos saem de pequenas epifanias aleatórias que anoto no celular. São sinapses que me acometem a qualquer instante, seja na aula de psicologia, seja numa noite de insônia. Acontece que nem todos são “aptos” a entrar no blog. Talvez por serem pessoais demais, talvez por serem uma fritação demasiado distante para que mentes que não a minha possam entender.

Esses dias minha memória de notas do celular lotou (sim!!!!) e, na hora de fazer uma limpeza, reli-as todas. 5, assustadoramente, descreviam intrinsecamente minha perspectiva de felicidade – que é eternamente mutável, como sabem – e se completavam, mesmo que distassem meses uma das outras. Era o conjunto de 2013. Dezembro, afinal!

Hoje escrevi o que seria a sexta parte. Mas essa também caiu no abismo dos textos inaptos – ele ainda tá só no início do ciclo. Talvez daqui a um ano ela esteja por aqui.

***
Eu lembro que andava contente pelas ruas contemplando com um sorriso bobo o raiar do sol e pensando em como a vida vinha me fazendo bem, feliz, alegre, me dando tudo o que eu mais queria e tudo o que eu nem queria mais. O problema é que faltava uma pessoa, um alguém não pra somar a felicidade, mas pra dividir, por que muita alegria assim, quando a gente guarda só pra gente, enjoa, e como ser feliz quando até a felicidade enjoa? Muita felicidade é como muita bala, ou você enjoa e para, ou você passa mal. A ideia é sempre dividir com alguém, ter alguém que vai sorrir de te ver sorrindo e vai sorrir pra você por que sabe que você vai sorrir de volta, e foi aí que a vida, dando sequência à esse trabalho magistral de me fazer a pessoa mais feliz do mundo, fez você cair bem na minha frente, como um coco que cai de uma árvore e, se não cai em você e machuca, te provê uma bela cocada. “Continua assim, vida”, lembro de pensar olhando a aurora no horizonte. “Logo, logo, estabiliza”.

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Eu lembro que uma coisa me incomodava: a felicidade só existe e é apreciada por existir a tristeza. Essa é a premissa dos opostos – se um não existisse, o outro não seria percebido. Se eu tava tão feliz, sabe, é por que há muito não sentia a tristeza e ela voltaria a qualquer instante. A vida tem dessas coisas, ela balanceia, não sei se a de todo mundo, mas a minha às vezes é, ainda que eu tenha motivos para crer que ela tenda a favorecer a tristeza. De qualquer forma, eu sabia que aquela felicidade era passageira e isso me dava medo de mudar o que quer que fosse – nem que fosse só uma aposta em alguém que, veja bem, a princípio, não poderia me foder de forma alguma. Eu juro que tentei, observei de todos os ângulos, mas como o vento, tu me pareceu inofensiva, até soprar mais forte do que eu sabia ser possível e mostrar todos os perigos que meus olhos não eram capazes de enxergar. Por essa incapacidade, segui com a brisa. A gente não tem tempo pra pensar, muito menos lugar pra voltar se errarmos – a gente só segue sendo levado pela brisa.

(…)

Eu lembro que não queria ir embora. Eu queria ficar ali, olhando você indo, só pra ter em mente, mais tarde, a imagem daquele momento e poder recorrer a ele todas as vezes que sentisse que eu estava sozinho e precisasse da tua companhia. Lembro que não voltei rápido pra casa naquele dia – fiquei observando o sol se deitar por trás das montanhas no horizonte, o céu roxo com tons alaranjados, o vento que mexia as árvores e as pessoas passando. Fiquei observando duas horas sozinho, sentado, celebrando – não só o dia, não só você, mas a vida. Naquele dia eu aprendi que minha vida não depende só de alguém pra ser feliz, sabe, só que facilita bastante. Eu aprendi isso por que poderia estar dizendo exatamente tudo o que disse aqui, mas falando do nascer do sol, pensando em outro dia, com outra pessoa e em outro lugar. Quando estive sozinho em pessoa mas com você no pensamento, percebi que a felicidade estava nos sentimentos que eu me fazia sentir por você. E, como dono deles, posso redirecioná-los para outro e outro e outro. De fato, não queria. Simpatizo. Gosto de você. Mas quando eu gosto o suficiente de alguém pra admiti-lo, parece que esse alguém passa a não mais merecer. Sem contar que a partir do momento em que deposito expectativa em uma pessoa, você, no caso, é de uma dificuldade colossal aceitar a decepção de não tê-las correspondidas, e eu sou preguiçoso, sabe, eu não quero dificuldades.

A culpa, novamente, está em mim. Não por escolher errado, mas por ainda tentar escolher.

“”

Eu sei que a vida continua. Ela tem ciclos, alguns bons, outros nem tanto. O bom terminou e, por favor, não entenda mal, você nem de longe foi a culpada – talvez um catalisador, quem sabe o fogo num paiol com pólvora, mas nunca a culpada. Na verdade, você foi só mais uma figura com a qual eu me imagino conversando eventualmente  – antes de você, eu pensava em outra. E antes dela, outra. A vida é como uma folha de papel em que, para escrevermos um novo parágrafo, precisamos apagar o anterior. Tu foste o novo parágrafo que, tristemente, chegou ao fim e não foi bom o suficiente. Mas eu tenho essa mania de escrever há muito tempo, e isso gera um ego, sabe, eu realmente acredito que eu escrevo muito bem e posso transformar qualquer rabisco em algo no mínimo digno de atenção. Tentarei, impulsivamente, ver alguma beleza no teu parágrafo, quem sabe escrever mais umas linhas com a letra miúda, provavelmente em vão, mas quem sabe um dia não estarei ouvindo uma música qualquer, em um lugar qualquer, com uma pessoa qualquer, e a inspiração para um novo parágrafo surgirá? E aí tu se tornará nada além de poeira de borracha, sendo levada pela mesma brisa que te trouxe.

De fato, não queria. Simpatizo. Gosto de você.

Adoraria que fosse tu que me desse uma folha nova pra continuarmos escrevendo essa história, mas eu escrevo com uma frequência muito grande e tu não parece disposta a me ajudar.

Então fazer o que?

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ImagemA vida é a eterna repetição dessa imagem.

6 comentários em “

  1. Desculpa mas….. Puta q pariu….. Que isso…. Que texto Guilherme…. Ate eu que sou difícil de ver sinceridade em palavras não aguentei com esse.
    Muito bom
    Muito…

    “Mas eu escrevo com uma frequência
    muito grande e tu não parece disposta a me
    (acompanhar)”

  2. Fui comentar pelo celular, mas meu relacionamento sério com a internet da Tim não anda lá essas coisas, brigamos quase sempre, e a mulher – atendente, pra ser mais bonitinho – já escutou alguns sonoros palavrões, acho que é isso. Enfim, não foi. Passei vergonha porque comentei em um tweet seu que fui claramente entusiasmada em seu blog hoje e foi por minha culpa – somente minha e de mais ninguém – que recebeu tantas visitas. Ainda acho que foi, mas isso não vem ao caso (odeio minha modéstia).
    Mas agora falando desse texto…. Puta que pariu hein… (foi assim mesmo que usei no comentário anterior que não foi). Soa um pouco ogro demais, nem a Fiona falaria assim, mas é o adjetivo (eca chamar de adjetivo) que encontrei. Tu escreve muito e não estou puxando saco até porque nem te conheço e é essa vantagem da internet, se quisesse podia te esculachar aqui e sairia ilesa (ou não). A uns dias tenho lido – voltado a ler – suas coisas e é admirável a essência que elas tens.
    Até escreveria mais coisas, mas vou me empolgar não que a primeira impressão é a que fica e a sua a meu respeito deve ser a de “psicopata, doente e nerd”.

    Enfim, parabéns. Bela escrita.

    1. uaehaeuh
      obrigado!
      Aliás, se você não fosse psicopata, doente e nerd, você provavelmente não estaria no meu blog, então eu gosto de você por isso! auehuaeh

      1. E eu não fico esperando ansiosamente suas respostas, só tenho o aplicativo do wordpress no celular ai ele avisa. Só outra descartar a hipótese de psicopata hahaha

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