A bíblia é grande, eu sei, Leitor, mas se achegue, sente-se confortavelmente e pare de se preocupar com as outras abas do computador. Saiba que nesse instante é importante estarmos a sós conosco mesmos, eu como escritor e tu como leitor. Vou contar uma história, uma memória, na verdade, e talvez ela não seja interessante, mas me fez muito bem escrevê-la, então não tente gostar dela se não estiver disposto a mergulhar no que é dito em cada palavra e participar dessa viagem tão plenamente quanto eu.

***

hopper.nighthawks

Acho assustador lembrar em como eu ficava em outra modalidade de pensamento enquanto estava com você. É como lembrar de outra vida, de outra pessoa – aqueles dias foram como se eu vivesse uma vida que não a minha. Eu nem lembro como a gente começou a se falar, mas lembro que em pouquíssimo tempo as coisas pareciam nos ligar, talvez fosse inconscientemente, pelo menos pra mim era  a maior parte, ou talvez você estivesse planejando tudo isso pelo modo como vocês, sábias mulheres, conseguem sempre planejar a forma como abordar e fazer um homem se apaixonar, o caso é que a gente acabava se achegando, meio devagarzinho, meio de bobeira, fosse no intervalo, fosse antes da aula, às vezes depois dela, até nas quartas feiras que nem tinha aula, mas a gente ia pro colégio só pra “estudarmos” – tô colocando aspas por que eu só ia pra ficar com você, caso você realmente fosse pra estudar (o que, olhando agora, acho improvável) – e acabávamos ficando só juntos mesmo naquela sala mal iluminada e com odores estranhos, mas que era até bem aconchegante. Quantas tardes eu não passei naquela sala, fosse com você, fosse com meus amigos, fosse sozinho, olhando pra parede e refletindo, ou às vezes até estudando, por que nós tínhamos realmente que estudar um bucado naquela época! Se você me pedir para desenhar um retrato daquele ano, certamente seria de nós dois em primeiro plano com aquela sala de plano de fundo, e alguns dos nossos amigos em segundo plano, talvez sentados por ali em outras mesas – você lembra como aquelas mesas tinham tamanhos e alturas diferentes, e às vezes você podia estar sentado numa cadeira de 70cm de altura e conversar com os outros que estavam numa de 50cm? Era quase um degrau de diferença, e isso às vezes era engraçado, como aquela sutil vontade que nos dá de sentar sempre no banco mais alto do ônibus -, poderia até não ter nenhum amigo nosso, apenas aquelas pessoas que a gente tinha que conviver por que vez ou outra decidiam usar a sala também. O que importa é que nessa fotografia certamente teria eu e você em primeiro plano, ainda que você não tenha estado presente na maior parte do ano, mais ou menos como o fato de a capa do Pulp Fiction ser aquela menina que só participa de uns poucos 40 minutos, mas que certamente teve algumas importância especial para o telespectador – ou pro próprio Tarantino. Eu me lembro também de comentar de forma boba, quase infantil, para uma amiga muito chegada, que se vangloriava constantemente de ser “mãezona” – corretamente, pois realmente era muito e eu a adorava por isso – de todos os detalhes das coisas que nós vivenciávamos, não todos, mas os que eu considerava mais importantes, como aquele dia em que a gente ficou de mãos dadas quase que inconscientemente (falando por mim novamente) e mais tarde você comentou que havia gostado de segurar minha mão. Que coisa boba, homossexual e desnaturada de um homem se lembrar depois de tanto tempo. Mas, veja bem, eu me lembro com o melhor dos saudosismos, como uma coisa que me deixou muito feliz e foi muito bem apreciada, não há nenhuma amargura na minha memória, este é apenas um relato de uma noite de meditação em que me veio à mente esses momentos e resolvi me aprofundar neles por serem realmente muito felizes como recordação.

Teve o dia também em que você foi estudar em uma sala vazia, sozinha, enquanto todos estavam na outra sala, a mal iluminada que falei agora a pouco, e quase que inconscientemente me sentei na mesa em frente à sua e resolvi que queria estudar ali também. “Tem muita gente na outra”, disse. Realmente tinha, sabe. Isso acontecia de vez em quando, de muita gente decidir ficar ali, era uma sala de estudos afinal, só que quando isso acontecia eu preferia ir dar um passeio com os meus amigos e tomar um café, mas naquele dia deixei que eles fossem sozinhos consigo mesmos e me sentei ali, na cadeira da sua frente. A imagem que eu tenho desse momento é engraçada, por que apesar de eu estar na sua frente, nós nos víamos de frente… – o que eu quero dizer é que, apesar de estarmos em uma sala de aula, estávamos cada um em uma extremidade dela com as cadeiras viradas um pro outro, e como era uma sala pequena, isso fazia com que estivéssemos a apenas uns 5 metros de distância mas olhando um de frente pro outro, olhando furtivamente, é claro, eu estudava, lia alguma coisa sobre história, talvez revolta da vacina, essas coisas de história do Brasil que a gente tinha que estudar, você também estudava seja lá o que estudasse, mas vez ou outra ambos deixávamos encontrar uns olhares que denotavam que havia ali uma conversação, ainda que nenhuma palavra fosse proferida e o som do ar condicionado – que era barulhento! – ditasse o ritmo daquela moda.

Lembro de eu voltando pra casa no fim do dia e tentando calcular a partir de qual prédio eu podia finalmente dizer a mim mesmo que já estava na metade do caminho, e então colocava despretensiosamente aquela música, a sua música, que eu havia conhecido na trilha sonora daquele filme que eu assisti só pra puxar assunto com você – ainda que eu tenha dito que já o conhecia antes -, e acabava lembrando de você pelo resto do caminho, e retomava mentalmente algumas conversas que tínhamos tido naquele dia, ou apenas refletia sobre quão chato era o fato de não termos nos encontrado naquele outro dia.

Eu gostei bastante de você, sabe. Não vou dizer que foi amor, lógico que não foi, foi uma sedução, isso mesmo, no sentido que eu li esses dias em algum lugar para “sedução”, que é a possibilidade – não prometida, mas almejada – de haver entre os dois alguma forma de relação sentimental sustentada pela premissa de ambos a almejarem, e essa sedução era uma das muitas coisas que faziam do meu dia marcante, junto com as aulas que eu gostava, as boas partidas que eu tinha no videogame, as conversas que eu tinha com os amigos e tudo o mais. A questão é que essa sedução foi tomando importância maior à medida que aumentava a proximidade dessa relação sentimental mais profunda – a relação sentimental mais rasa existiu a partir do momento em que você sorriu pra mim a primeira vez, e isso pode soar clichê, mas o teu sorriso tem um espaço especial na minha memória – e isso fazia com que você ficasse um tanto quanto mais frequente no meu pensamento. Acho que essa pode ser uma visão cética e psicológica de todo relacionamento saudável, ou talvez seja só um jeito meio esquizofrênico que eu achei pra descrever aquela relação divertida que a gente teve.

O fato é que ela não terminou tão bem, isso é o ponto em que eu acho que nós dois podemos concordar, e também chega a ser engraçado lembrar essa forma por que lembra que eu disse que você me colocava em outra modalidade de pensamento? Então, o fato como ele terminou foi como um retorno à minha modalidade padrão de pensamento, e tal qual como ser acordado bruscamente depois de um sonho demorado e delicioso, fiquei atordoado, atabalhoado, não conseguia sequer por as palavras na ordem certa, principalmente naquele dia em que a gente teve nossa primeira – e única – discussão e eu saí dela me sentindo um completo idiota pelos rumos como ela se seguiu. Você lembra que eu disse “eu não tô nervoso, não tô, sei lá, batendo em você, tô de boa” e você perguntou “você queria bater em mim?” e eu fiquei tipo “what??”. Eu tinha acabado de dizer justamente o contrário! Aí fazendo aquela pergunta você fazia parecer que eu tinha deixado aquilo subentendido! Nunca! Cacete, aquilo me deixou desconcertado. Eu não bateria em você de forma nenhuma, isso nunca sequer me passou pela cabeça – até você dizer, é claro, aí por alguns instantes eu achei aquilo bem sexy, mas prontamente descartei a ideia. O que eu mais queria era te abraçar forte pra cacete e ouvir você dizer que dava pra deixar aquilo tudo pra lá, que era foda mesmo, mas que você tinha feito merda e que eu também tinha vacilado feio, mas dava pra gente esquecer tudo, absolutamente tudo, e começar desde o zero aquela dança. Mas o fim do ano se aproximava, e de repente a gente parou de ter aula de tarde, e aquela possibilidade simplesmente não poderia mais ser, já que a principal razão que a gente tinha pra ficar junto eram aquelas aulas, então o fato de eu não ter te abraçado e você não ter me dito todas aquelas coisas era até plausível, mas chato mesmo foi o jeito como terminou, né. Uma coisa é ser plausível não terminar bem, mas terminar mal é outra história.

****

Enfim, a fome bate e desse teclado sairiam milhares de recordações que estampavam aquele semblante tão adorável, então não vou me ater muito mais a elas. Um outro dia, quem sabe, pois lembrar dele é sempre uma coisa bonita, divertida, como que olhar um álbum de fotos que a mente garantiu de manter muito bem guardado no estábulo da memória.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s