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“- De que quer então que sirvam o tempo, o progresso, as medalhas, as cruzes, os prêmios de Monthyon, se não for para conduzir a sociedade à sua maior perfeição? Ora, o homem não será perfeito senão quando conseguir criar e destruir como Deus: já sabe destruir, é meio caminho andado.”

Esses dias, acometido por mais uma dessas insônias que rolam vez ou outra, ficou muito tempo olhando o teto do seu quarto. Só então percebeu que estava claro. Não por que o sol nascia ou por que alguma lâmpada estava acesa, mas por que as luzes da rua entupiam o quarto com fiapos de cor laranja, e a televisão com aquela estável luz vermelha, e os estabilizadores verdes e o celular na tomada, tudo compactuava para que o quarto estivesse  com uma penumbra multicolorida que delatava os contornos de tudo o que ali continha.

Se perguntou se conseguiria simular, naquele lugar, às 3:45 da noite, um ambiente escuro. Não podia ser tão difícil! Fechou as janelas, desligou os estabilizadores, tirou o celular da tomada. Ainda via. Um resquício de luz ainda preenchia o quarto vinda da janela, que era parcamente tampada pela cortina de pano fino.

Ficou ligeiramente desanimado. Imagine como seria ter uma noite de sono sem nenhum resquício de luz, se o cérebro não se sentiria mais confortável assim! Imaginou que nunca poderia simplesmente se enfiar no quarto e desaparecer na escuridão. Imaginou que nunca poderia confundir se estava de olhos abertos ou fechados – não sabia nem se era possível.

Levantou da cama e saiu do quarto. Demorou muito tempo para encontrar o interruptor do corredor e quase bateu com a cabeça na parede na busca. Acendeu e apagou novamente a luz. Percebeu, então, que estava na escuridão plena de um corredor com todas as portas fechadas e sem janela.

Tinha sumido do universo.

o título era muito melhor que esse

As vezes eu sonho.

As vezes eu não tenho certeza se determinadas coisas aconteceram ou foram sonhos.

As vezes eu conto coisas que eu sonhei como se fossem coisas que aconteceram  acreditando nisso.

As vezes eu só minto mesmo.

As vezes eu esqueço o que realmente aconteceu e começo a acreditar no que eu tinha mentido.

As vezes eu esqueço quem me fala que determinadas coisas aconteceram.

As vezes eu conto coisas para as mesmas pessoas que me contaram essas coisas sem saber que foram elas que me contaram.

As vezes eu só falo a verdade mesmo, assim de boa.

As vezes eu minto e percebo que a mentira é tão melhor que a verdade que começo a acreditar nela por livre e espontânea vontade.

As vezes esses casos se tornam aquela situação em que eu esqueço como eles eram quando verdade e acabo acreditando realmente na mentira.

As vezes eu penso em determinadas coisas que poderiam ter acontecido mas não aconteceram.

As vezes eu não sei se essas coisas realmente aconteceram ou se eu estou só lembrando delas por que antes eu havia pensado nela mesmo sem ela ter acontecido.

E nesses casos eu acabo passando a acreditar nelas.

As vezes eu só falo a verdade, mesmo assim.

De boa.

PEQUENAS EPIFANIAS. Caio Fernando Abreu. In: Pequenas epifanias: crônicas (1986-1995). Porto Alegre: Sulina, p.13-15.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de ‘minha vida’. Outros fragmentos, daquela ‘outra vida’. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos. Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas. Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ela pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece. De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprassse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia. Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de fel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

A maioria dos meus textos saem de pequenas epifanias aleatórias que anoto no celular. São sinapses que me acometem a qualquer instante, seja na aula de psicologia, seja numa noite de insônia. Acontece que nem todos são “aptos” a entrar no blog. Talvez por serem pessoais demais, talvez por serem uma fritação demasiado distante para que mentes que não a minha possam entender.

Esses dias minha memória de notas do celular lotou (sim!!!!) e, na hora de fazer uma limpeza, reli-as todas. 5, assustadoramente, descreviam intrinsecamente minha perspectiva de felicidade – que é eternamente mutável, como sabem – e se completavam, mesmo que distassem meses uma das outras. Era o conjunto de 2013. Dezembro, afinal!

Hoje escrevi o que seria a sexta parte. Mas essa também caiu no abismo dos textos inaptos – ele ainda tá só no início do ciclo. Talvez daqui a um ano ela esteja por aqui.

***
Eu lembro que andava contente pelas ruas contemplando com um sorriso bobo o raiar do sol e pensando em como a vida vinha me fazendo bem, feliz, alegre, me dando tudo o que eu mais queria e tudo o que eu nem queria mais. O problema é que faltava uma pessoa, um alguém não pra somar a felicidade, mas pra dividir, por que muita alegria assim, quando a gente guarda só pra gente, enjoa, e como ser feliz quando até a felicidade enjoa? Muita felicidade é como muita bala, ou você enjoa e para, ou você passa mal. A ideia é sempre dividir com alguém, ter alguém que vai sorrir de te ver sorrindo e vai sorrir pra você por que sabe que você vai sorrir de volta, e foi aí que a vida, dando sequência à esse trabalho magistral de me fazer a pessoa mais feliz do mundo, fez você cair bem na minha frente, como um coco que cai de uma árvore e, se não cai em você e machuca, te provê uma bela cocada. “Continua assim, vida”, lembro de pensar olhando a aurora no horizonte. “Logo, logo, estabiliza”.

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Eu lembro que uma coisa me incomodava: a felicidade só existe e é apreciada por existir a tristeza. Essa é a premissa dos opostos – se um não existisse, o outro não seria percebido. Se eu tava tão feliz, sabe, é por que há muito não sentia a tristeza e ela voltaria a qualquer instante. A vida tem dessas coisas, ela balanceia, não sei se a de todo mundo, mas a minha às vezes é, ainda que eu tenha motivos para crer que ela tenda a favorecer a tristeza. De qualquer forma, eu sabia que aquela felicidade era passageira e isso me dava medo de mudar o que quer que fosse – nem que fosse só uma aposta em alguém que, veja bem, a princípio, não poderia me foder de forma alguma. Eu juro que tentei, observei de todos os ângulos, mas como o vento, tu me pareceu inofensiva, até soprar mais forte do que eu sabia ser possível e mostrar todos os perigos que meus olhos não eram capazes de enxergar. Por essa incapacidade, segui com a brisa. A gente não tem tempo pra pensar, muito menos lugar pra voltar se errarmos – a gente só segue sendo levado pela brisa.

(…)

Eu lembro que não queria ir embora. Eu queria ficar ali, olhando você indo, só pra ter em mente, mais tarde, a imagem daquele momento e poder recorrer a ele todas as vezes que sentisse que eu estava sozinho e precisasse da tua companhia. Lembro que não voltei rápido pra casa naquele dia – fiquei observando o sol se deitar por trás das montanhas no horizonte, o céu roxo com tons alaranjados, o vento que mexia as árvores e as pessoas passando. Fiquei observando duas horas sozinho, sentado, celebrando – não só o dia, não só você, mas a vida. Naquele dia eu aprendi que minha vida não depende só de alguém pra ser feliz, sabe, só que facilita bastante. Eu aprendi isso por que poderia estar dizendo exatamente tudo o que disse aqui, mas falando do nascer do sol, pensando em outro dia, com outra pessoa e em outro lugar. Quando estive sozinho em pessoa mas com você no pensamento, percebi que a felicidade estava nos sentimentos que eu me fazia sentir por você. E, como dono deles, posso redirecioná-los para outro e outro e outro. De fato, não queria. Simpatizo. Gosto de você. Mas quando eu gosto o suficiente de alguém pra admiti-lo, parece que esse alguém passa a não mais merecer. Sem contar que a partir do momento em que deposito expectativa em uma pessoa, você, no caso, é de uma dificuldade colossal aceitar a decepção de não tê-las correspondidas, e eu sou preguiçoso, sabe, eu não quero dificuldades.

A culpa, novamente, está em mim. Não por escolher errado, mas por ainda tentar escolher.

“”

Eu sei que a vida continua. Ela tem ciclos, alguns bons, outros nem tanto. O bom terminou e, por favor, não entenda mal, você nem de longe foi a culpada – talvez um catalisador, quem sabe o fogo num paiol com pólvora, mas nunca a culpada. Na verdade, você foi só mais uma figura com a qual eu me imagino conversando eventualmente  – antes de você, eu pensava em outra. E antes dela, outra. A vida é como uma folha de papel em que, para escrevermos um novo parágrafo, precisamos apagar o anterior. Tu foste o novo parágrafo que, tristemente, chegou ao fim e não foi bom o suficiente. Mas eu tenho essa mania de escrever há muito tempo, e isso gera um ego, sabe, eu realmente acredito que eu escrevo muito bem e posso transformar qualquer rabisco em algo no mínimo digno de atenção. Tentarei, impulsivamente, ver alguma beleza no teu parágrafo, quem sabe escrever mais umas linhas com a letra miúda, provavelmente em vão, mas quem sabe um dia não estarei ouvindo uma música qualquer, em um lugar qualquer, com uma pessoa qualquer, e a inspiração para um novo parágrafo surgirá? E aí tu se tornará nada além de poeira de borracha, sendo levada pela mesma brisa que te trouxe.

De fato, não queria. Simpatizo. Gosto de você.

Adoraria que fosse tu que me desse uma folha nova pra continuarmos escrevendo essa história, mas eu escrevo com uma frequência muito grande e tu não parece disposta a me ajudar.

Então fazer o que?

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ImagemA vida é a eterna repetição dessa imagem.

Eu que me aguente Comigo

Contudo, contudo
também houve gládios e flâmulas de cores
na primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
orvalhou os campos da minha visão involuntária,
também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apenas.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
(…)

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
mas isso era outro mundo.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

– Fernando Pessoa

Un Poco de Chocolate [2008]

Tenho essa mania de assistir aos filmes estrangeiros mais absolutamente aleatórios que consigo achar. Já passei por cinema Sérvio aos confins do alternativo alemão, passando pelos mais recentes franceses e por alguns espanhóis. Mas existe um que me agradou mais do que qualquer outro em muito tempo:

Maria e Lucas são irmãos idosos e viúvos. Lucas é daqueles velhinhos absolutamente adoráveis que vez ou outra delira e é acometido por imagens do passado – sua primeira e única paixão, Rosa, seus amigos de carpintaria, todos já mortos, os dias na praia, no barco, e situações semelhantes. María é viúva de um homem que morreu afogado, e talvez por isso ela goste tanto de passar tempo na banheira escrevendo histórias e lembrando do noivo. Também é absolutamente adorável, sempre sorridente e fraternal, como aquelas pessoas que você gostaria de adotar para si só pra tê-la por perto sempre que quiser.

Marcos está ligeiramente perturbado; saiu de casa por conflitos familiares e vagava pela cidade até que conhece Lucas e passa a acompanhá-lo em suas andanças pela cidade. Ouve suas histórias, seus conselhos e lhe faz a companhia que um velhinho adorável precisa. Até que conhece Roma, a criatura simplesmente mais absolutamente linda e impecável da face dessa Terra. Se houver uma alma gêmea nessa mundo, certamente é essa menina. Roma se junta então ao grupo e os 4 são perfeitamente adoráveis juntos.

O mais confortável e bonito nesse filme é que todos estão sempre sorrindo. Lucas às vezes lembra de estar na estação do bonde com Rosa, e ela lhe dá um beijo de despedida. Ele se pega, então, lembrando daquele beijo com o maior amor e inocência que uma pessoa pode ter. Mais tarde, pergunta a Marcos “sua namorada lhe dá todos os beijos que você quer?”, no que ele responde “sim”. “Que bom! Que bom! Rosa costuma ser econômica comigo…” e você simplesmente se vê querendo abraçar sua televisão.

O filme não tem um ápice, uma história com início, meio e fim. Ela simplesmente acontece, e você se sente perfeitamente à vontade em apenas acompanhar a história daquele velhinho tão simpático.

Imagino que dos, sei lá, 5 leitores que esse blog tem, apenas 3 chegaram ao final desse texto – os outros 2 desistiram ao ver que era falando de um filme. Vocês 2, amigos, baixem-no e hão de me agradecer.

 

Torrent
Legenda
Filmow (que comprova o que eu disse)