Insetos

Olha, me desculpa. Do fundo do coração, eu realmente não queria ter feito isso, mas foi meio que uma necessidade. Você, sim, foi você quem me pôs nessa situação. Tu acha que eu não preferia termos ficado bem, abraçados, assistindo a algum filme numa tarde gelada de domingo embaixo dos cobertores, comendo pipoca e trocando carícias vez ou outra? Tu realmente acha que eu gosto de estar nessa situação, de ter de fazer escolher drásticas e difíceis como essa? Ah, me deixe te ajudar, tem um bicho aqui no teu rosto, uma mosca, acho, não sei, é pequena ela. Mas é claro que eu preferia ter ficado de bem. Ora, eu te amo! Eu te amo, amei e amarei, em todas as conjugações possíveis e viáveis, exceto amava, que subentende não mais amar, o que não é verdade. Você se importa de eu acender um cigarro? Ah, bem, acho que você não ta mais em posição de se importar com isso, ou com qualquer coisa, na verdade. Sei que devia parar, é feio, fedorento e desde que tu me disse que estava tossindo com um certo ar de doente que venho percebendo que este cigarro tem me causado maus bocados. É o veredicto: pararei de fumar a partir de hoje. Eu e você estamos começando uma nova etapa de nossas vidas, e nada melhor para começar novas etapas do que fazer promessas que nós realmente esperamos cumprir, embora, no fundo, saibamos que não a conseguiremos. Qual a tua? Olha, só uma sugestão, tente, a partir de agora, não trair mais quem tu diz amar. Por que isso realmente machuca. Chorei por muito tempo, e olha que eu nunca choro, tu sabe. Além do choro, uma arrebatadora depressão me fez ficar preso à cama por dias, quiçá semanas. Perdi a noção do tempo, já que nem a janela eu abri e no relógio acabara a bateria. Ah, caramba, me desculpa! Você é alérgica a cigarro, não é? Faz tanto tempo que não fico perto de você de verdade. Só em pensamento. Meu pensamento não te deixara um único instante desde que conheci o gosto de ter a tua imagem na minha mente pela primeira vez. Me desculpe, de verdade, por te por nesta situação. Apagarei meu cigarro logo após este trago. Pronto, está apagado. Tu sabe, eu sou muito esquecido. Uma coisa, porém, que eu nunca esqueci, foi o quanto eu te amo. Diferente de tu, que durante todo o tempo que estava lá, com ele, esquecia de mim, não é? Mas tudo bem, agora ta tudo bem. Eu já sofri muito, fiquei muito triste e, apesar de ainda alimentar um certo rancor lá no fundo, bem no fundo, do meu coração, eu já te perdoei. Quer dizer, te perdoei agora. Agora, te vendo assim, conversando contigo com toda a sinceridade, sem pudor ou receio de falar qualquer coisa. Nossa! Ainda não tinha sentido, mas agora que passou uma corrente de vento percebi o quão mal cheirosa você está. A vida dá voltas, hein? Não foi no chuveiro, que vocês ficaram? É, ele me contou tudo. Você me perguntou como eu tinha descoberto, não? Ele foi lá na minha casa e disse “amigo, tu já erraste alguma vez em vida? Um erro que tenha feito todos os outros erros parecerem sem a menor importância? Um erro, ah meu amigo, tu és de grandessíssima estima pra mim, por favor, não esqueça disso nunca. Este erro foi tão grande que só mesmo dissertando-o conseguirei explicá-lo: amigo, trai tua confiança.”. Contou-me os detalhes mais sórdidos. Acho que pensou que eu não me importaria. Entenderia que vocês estavam apaixonados, que era algo além do controle de vocês. Devo admitir que tenho parte da culpa por ele pensar isso: fiquei completamente calado. Não proferi uma única ofensa, não o agredi uma única vez. Não lhe toquei em um único fio de cabelo. Só sugeri que deixasse meu aposento e não mais voltasse, nunca mais. Dei certa ênfase ao nunca, espero que ele tenha percebido. Ah, esse inseto está de novo no seu rosto. Será outro, ou o mesmo? Muitos insetos vão te cercar agora, sabe. Acho que é melhor você se acostumar a eles, pode ser algo realmente necessário a partir de agora. Enfim. A polícia logo menos chegará. Cruzei com um vizinho enquanto entrava aqui, e creio que ele se assustou ao me ver segurando um cutelo. Apostaria todo o meu dinheiro que ele ligou para a polícia assim que saí do elevador. Mas não será preciso, sabe. Meu dinheiro já não é mais meu mesmo. Nada mais me pertence. Em fato, daqui a instantes nem minha vida pertencerá a mim. Opa, a sirene. Ah, se eu tivesse mesmo apostado, hein? Enfim. Preciso ir. Tome um último beijo de despedida. Despedida não, certo? Iremos ambos para o mesmo local em breve, imagino. Tu foste na frente, mas já chego. Sempre fui mais rápido que você mesmo.

Eu não sei explicar nem como funciona, mas acontece que vez ou outra vem a sua imagem, assim, na minha cabeça, e eu gosto, sabe, de te ter em mente o tempo todo, já nem sei mais há quanto tempo.

E nem sei se você é lá isso tudo que eu construí na minha mente, por que eu costumo fazer isso, sabe, criar um personagem na minha cabeça e anexá-lo a desconhecidos, no caso, tu, que tão linda assim se fez presente em minha mente tempo demais pra não ter uma história própria.

O problema é que ainda não aprendi a criar barreiras que me impeçam de me magoar quando descubro que a realidade em nada se assemelhava com minha criação, descubro que a pessoa, no caso, tu, não passava de um filme mudo ao qual adicionei meu próprio roteiro, e esses sucessivos embates com a realidade me destroem, me corroem e desiludem. É como um veneno que discretamente me arrebata e finaliza, uma pequena rachadura que, de tanto ser pressionada, torna-se uma enorme cratera.

A única conclusão que chego pensando nessas coisas é que, vê se tu me entende, saudáveis e felizes são os loucos, que nunca percebem que a realidade não é igual aos seus devaneios de insanidade.

Vivo no limiar da sanidade com a loucura, da dor com a pura serotonina. E não cabe mais nenhuma decepção no meu copo. Não transborda, por favor.

Cheiro

O tempo ta fechado e as pessoas seguem sendo estupidamente estúpidas, e essa estupidez, você sabe, me irrita, sempre me irritou e eu não sou lá de me irritar normalmente, sou bem calmo até, mas me irrita. E por descostume, talvez, não sei, essa irritação me machuca, me dói, e a dor acaba trazendo mais irritação.  Essas são as duas coisas que me irritam, dor e estupidez, também me irrito quando meu time perde, mas é uma irritação diferente, é mais volúvel. Talvez, não sei, vai saber, o que sei eu, além de que nada sei, não é? Mas talvez, veja bem, só talvez, eu esteja é sentindo a tua falta e de todo aquele aconchego que me viciava no teu calor, no teu cheiro, no sentir da tua pele junto à minha. Uma vez teu cheiro ficou impregnado na minha camisa, aquela do cogumelo, sabe? Então, não lavei ela por muito tempo, não usei também pra não gastar muito o cheiro. Correndo o risco de soar idiota – mais do que já estou, veja bem, – eu até a cheirava de vez em quando e lembrava do momento em que aquele cheiro passava pra ela, naquela festa em que nossos lábios selaram um contrato que vínhamos formulando a seis – seis? – seis meses e pouco, acho. Um selo meio xoxo, rápido até, ‘fico sem ar enquanto beijo’ você disse e eu não entendi ‘como assim? Beijo teus lábios, não teu nariz’ ‘não consigo’ tu disse, e achei que era uma desculpa pra não me beijar, mau hálito talvez? ‘beija ela’ disse um menino ‘ela não quer’ conclui, abaixando a cabeça ‘não?’ tu me contestou e ‘não?’ eu te contestei, e daí tu me beijou (rapidamente, pra poder respirar) e passou aquele cheiro pra minha camisa. Mas o cheiro acabou, que nem teu efeito sobre mim, ou, mais provavelmente, meu efeito sobre ti, já que foi tu que disse ‘vamos ser só amigos’ antes de eu responder ‘não dá, eu não consigo’. Tu é uma droga demasiada viciante para um uso ocasional e eu sou sedento por prazeres imediatos já que nunca me dei bem com os a longo prazo e, veja só, sem meus prazeres e caprichos acabo ficando irritado com coisas bobas, que sempre existiram e, apesar de parecerem mais evidentes ultimamente, sempre existirão – como, por exemplo, a estupidez estupidamente estúpida  das pessoas. O que eu preciso é de uma anestesia geral que me desligue do mundo e, quem sabe assim, talvez, me desligue de você. Por que teu cheiro, ah, esse teu bendito cheiro não sai da minha cabeça, mesmo depois de já ter saído da minha camisa há muito tempo.

Ciano

No segundo em que pusera os sapatos azuis ciano no salão todos pararam a olhá-la – e havia dois homens cuspindo fogo mais ao fundo. Estava radiante. Os cabelos castanhos caídos pelo vestido formavam caracóis nas pontas, e a pele macia como seda tinha uma leve camada de maquiagem, de praxe somente, pois não havia como torná-la ainda mais perfeita do que já era naturalmente. Singela, cumprimentou os conhecidos e recostou-se na parede onde algumas conhecidas conversavam sobre a menina-que-deu-pro-menino-hiper-feio-enquanto-estava-bêbada. Aos poucos, cada uma tinha a mão convidada para uma dança e em questão de minutos ficara sozinha. Não por ninguém querer convidá-la, mas sim por ninguém ter a coragem necessária. Quem seria aquele que convidaria uma rainha para dançar perante todo o salão nobre e expor-se-ia à inconveniência dos passos em falso, dos erros na mudança de ritmo, das trocas de pés demasiado rápidas ou de uma falta de equilíbrio? Era mais cômodo convidar uma prima de segundo grau, ou uma chegada com a qual os erros passariam em branco para qualquer um que não os próprios a dançar. Até que, do fundo do salão, não o menino mais bonito, mais rico ou, muito menos, mais popular, fez-se olhar. É capaz de ninguém ter notado sua presença ali até então. Escondido sob cabelos escorridos, estavam os olhos – grande pérolas castanhas, foi-se notar depois. Com uma calça skinny gasta e o casaco de couro negro cobrindo a camisa social negra, aproximou-se discretamente da menina. Fosse ele por ser ele, ou fosse pela falta de importância da circunstância, poucos notaram que o menino pedira sua mão para uma dança. Tocava Bon Jovi, Never Say Goodbye, e todos estavam abraçados. Enquanto a voz embargada de John ecoava we dance so close, we dance so slow por todo o salão, a rainha aceitara o convite do coringa de dar-lhe o prazer de uma dança, e ambos tornavam-se a atração principal dos olhos atentos e discriminados. Nenhum sabia dançar, mas se completavam da forma mais inesperada possível e faziam uma apresentação impecável, envoltos em brumas e holofotes brilhantes. Um pé em falso aqui era compensado por um sorriso tímido ali, e ao ser girada com toda a formosura que fora possível, a multidão que os observava incessantemente rendeu-se às palmas que lhes ardiam as mãos. A dança fora terminada com uma troca de olhares de tamanho impacto e demora que sinalava, ali mesmo, que ambos eram muito mais do que desconhecidos coincidentemente no mesmo recinto. Deu-a um beijo à mão e retirou-se da pista de dança em direção ao portão de saída. Enquanto descia a escadaria de mármore, a menina corria ao primeiro degrau e lhe perguntara aonde ia. “Pra casa”, respondeu. “Me leva contigo”, pediu. “Desculpe, não posso”. “Podemos”, disse enfática, se aproximando dele, que parara no sétimo degrau. “Queria eu, mas não, não podemos. Não por mim, não por ti, mas por ambos. Neste mundo não há a possibilidade de eu como eu e um tu como tu ficarem juntos e transformarmo-nos em nós, por mais que pareçamos feitos para isso”, disse, dando-a as costas e saindo, embora seu coração tivesse ficado lá dentro, nas mãos dela, junto ao vestido ciano.

Ei, cara. Desculpa demorar tanto tempo pra te mandar uma resposta, mas tu sabe como é – não tá fácil. Até eu fico atolado às vezes. Mas não pense que eu te esqueci. Pelo contrário.

Teu caso sempre me intrigou um bucado. Tu fica aí, com estas tuas lamúrias provenientes de problemas simplórios, com esses teus dramas de relacionamentos infames, mas não percebe que tudo é passageiro. Meu caro, tu acha que és o único que não é correspondido? Tu acha que é o único que pensa o tempo todo em alguém que não pensa em ti tempo algum? Tu acha que é o único que acredita não sentir-se recíproco spelo teu amor verdadeiro? O amor verdadeiro que tanta gente corre atrás acreditando ser a resposta para todos os problemas – mas não é.

Tu fica com essa rispidez nos olhos, achando que és alguém que já sofreu muito. Já passaste por poucas e boas, mas longe de já ter sofrido muito. Tu acha que qualquer momento em que não esteja cercado de alegria é um momento de sofrimento, mas esquece que tem gente ao redor de todo o mundo que talvez nunca tenha deleitado o sentimento da alegria. O doce e vicioso gosto da alegria. Eles nunca o sentiram. Tu já pensou nisso? A Alegria. Que tanta gente corre atrás, acreditando ser a resposta de todos os problemas – mas não é.

Tu fica com essa tua ignorância, achando que já sabe tudo o que precisa saber. Achando que só por que já tem barba na cara e já sabe beber não precisa saber mais sobre o mundo que te cerca. Meu caro, tu nunca saberá tudo. Tem tanta coisa que faltas saber, que em comparação com o que já sabe, tu não sabe de nada. Ninguém sabe nada. Apesar desse decepcionante fato, tu deves continuar uma incessante busca pelo conhecimento. Talvez, em algum momento do percurso, tu passe a acreditar que ele é a resposta de todos os problemas – mas não é.

Tu fica aí nessa luta frenética contra os teus limites para angariar uns papéis coloridos a mais no fim do mês. Amigo, o dinheiro é a coisa mais enfadonha que já foi criada. Acredite – eu sei. É meio monótono, na verdade. Há tanto tempo eu vejo as pessoas lutando tanto para tê-lo e, vendo agora, me pergunto: por quê? Pra quê? Ele vem, ele vai. O que fica são as experiências que tu passou. Mas não contentes de dispor destas, tanta gente (inclusive tu) corre atrás de ainda mais dinheiro, acreditando ser a resposta de todos os problemas – mas também não é.

Na realidade, meu amigo, a resposta para todos os problemas é simplesmente a tua capacidade de olhar pra frente, respirar fundo e andar.

Talvez se tu parasse de se deixar levar pelas tristezas despropositadas, pela ganância, pela ignorância, pela auto-flagelação, tu percebesse isso. Até lá, eu fico aqui, só esperando. Tenho que voltar ao trabalho, se tu não se importar.

Aquele abraço.