“Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura — loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.”

Ernest Becker, A negação a morte.

Nós tivemos alguns problemas com as premissas, e quando se tem problemas com premissas é sempre complicado pois erra-se quatro vezes: a primeira por termos a premissa errada; a segunda por crermos que nossa premissa está certa; a terceira e a quarta por quase todos os verbos desse texto estarem na segunda do plural, o que dobra nossos erros na medida em que os erramos juntos.

Pois chegou até a ser estranho a percepção desse engano quando estava sentado numa mesa de bar, na entrada de um lugar terrível, conversando despretensiosamente com um dos meus amigos mais inteligentes e, talvez por isso, mais ocupados. Ele me disse, quase sem estranhamento algum, que não se pode ter um relacionamento enquanto você não é pleno de si.

Eis a premissa.

Há anos carrego no peito um vazio que se estende a cada decepção e anseia pelo preenchimento pela energia que emana do peito de outro alguém. Essa energia, no entanto, só pode ser canalizada plenamente para mim quando não houver mais o vazio. Preciso achar minha plenitude em mim mesmo antes de procurar ajuda em outrem.

Me desculpa, então. Fica claro, mais que claro! Fica evidente que a culpa de todas as falhas foi não só tua, como pensei, mas nossa. Minha por ser vazio, tua por não saber encher-me. E eu que acreditei, por alguns momentos, estar a ponto de transbordar de mim mesmo!

Encerro a busca por alguém. Sigo na busca por mim mesmo.

Me desculpa te envolver nessa história. É que, você sabe, você sempre foi gata demais e isso confunde as premissas de um cara confuso.

Vivemos sobre a eterna crença de que nunca morreremos. Se antes de agirmos, se antes de toda e qualquer atividade, pensássemos no fato de que morreremos um dia e que todos ao nosso redor também morrerão, nunca faríamos nada. Estudamos para, no futuro, trabalharmos. Trabalhamos para, no futuro, termos dinheiro. E temos dinheiro para, no futuro, termos conforto. A única certeza quanto ao futuro, no entanto, é a morte. Por que, então, as pessoas tem medo da morte?

A morte nos assusta pelo fato de ser desconhecida. Se soubéssemos o que ocorrerá, não teríamos medo de nos sentir arrependidos pelo que fizemos ou pelo que não fizemos, não teríamos sequer medo de não sentir nada. Saberíamos o que esperar e, portanto, viveríamos de acordo com a única certeza que temos em vida.

O que me faz pensar, no entanto, é que quanto mais eu fico velho, menos eu sei da vida. Quanto mais conceitos e certezas eu tenho, mais eles fomentam as dúvidas e incertezas. E isso não é ruim – uma boa resposta é a que levanta duas dúvidas. Ela nos faz pensar, no faz questionar e nos mantém eternamente ávidos por saber mais. E, quanto mais sabemos, mais percebemos que não sabemos o suficiente, de forma que, quanto mais inteligentes, mais reconhecemos nossa burrice, o que me leva a crer que, se tememos o desconhecido, quanto mais conheço a vida, mais tenho medo da vida.

Não é a toa que os burros, os ignorantes e os idiotas são os que invariavelmente se dão tão bem nela. Quantas vezes não observei do escanteio ignorantes subirem na vida? Quantas vezes não vimos chefes mais burros que empregados?  Quem nunca se perguntou por que o Neymar ganha tanto e Freud ganhava tão pouco?

Os inteligentes tem medo da vida.

E ela não os perdoa por isso.

Insetos

Olha, me desculpa. Do fundo do coração, eu realmente não queria ter feito isso, mas foi meio que uma necessidade. Você, sim, foi você quem me pôs nessa situação. Tu acha que eu não preferia termos ficado bem, abraçados, assistindo a algum filme numa tarde gelada de domingo embaixo dos cobertores, comendo pipoca e trocando carícias vez ou outra? Tu realmente acha que eu gosto de estar nessa situação, de ter de fazer escolher drásticas e difíceis como essa? Ah, me deixe te ajudar, tem um bicho aqui no teu rosto, uma mosca, acho, não sei, é pequena ela. Mas é claro que eu preferia ter ficado de bem. Ora, eu te amo! Eu te amo, amei e amarei, em todas as conjugações possíveis e viáveis, exceto amava, que subentende não mais amar, o que não é verdade. Você se importa de eu acender um cigarro? Ah, bem, acho que você não ta mais em posição de se importar com isso, ou com qualquer coisa, na verdade. Sei que devia parar, é feio, fedorento e desde que tu me disse que estava tossindo com um certo ar de doente que venho percebendo que este cigarro tem me causado maus bocados. É o veredicto: pararei de fumar a partir de hoje. Eu e você estamos começando uma nova etapa de nossas vidas, e nada melhor para começar novas etapas do que fazer promessas que nós realmente esperamos cumprir, embora, no fundo, saibamos que não a conseguiremos. Qual a tua? Olha, só uma sugestão, tente, a partir de agora, não trair mais quem tu diz amar. Por que isso realmente machuca. Chorei por muito tempo, e olha que eu nunca choro, tu sabe. Além do choro, uma arrebatadora depressão me fez ficar preso à cama por dias, quiçá semanas. Perdi a noção do tempo, já que nem a janela eu abri e no relógio acabara a bateria. Ah, caramba, me desculpa! Você é alérgica a cigarro, não é? Faz tanto tempo que não fico perto de você de verdade. Só em pensamento. Meu pensamento não te deixara um único instante desde que conheci o gosto de ter a tua imagem na minha mente pela primeira vez. Me desculpe, de verdade, por te por nesta situação. Apagarei meu cigarro logo após este trago. Pronto, está apagado. Tu sabe, eu sou muito esquecido. Uma coisa, porém, que eu nunca esqueci, foi o quanto eu te amo. Diferente de tu, que durante todo o tempo que estava lá, com ele, esquecia de mim, não é? Mas tudo bem, agora ta tudo bem. Eu já sofri muito, fiquei muito triste e, apesar de ainda alimentar um certo rancor lá no fundo, bem no fundo, do meu coração, eu já te perdoei. Quer dizer, te perdoei agora. Agora, te vendo assim, conversando contigo com toda a sinceridade, sem pudor ou receio de falar qualquer coisa. Nossa! Ainda não tinha sentido, mas agora que passou uma corrente de vento percebi o quão mal cheirosa você está. A vida dá voltas, hein? Não foi no chuveiro, que vocês ficaram? É, ele me contou tudo. Você me perguntou como eu tinha descoberto, não? Ele foi lá na minha casa e disse “amigo, tu já erraste alguma vez em vida? Um erro que tenha feito todos os outros erros parecerem sem a menor importância? Um erro, ah meu amigo, tu és de grandessíssima estima pra mim, por favor, não esqueça disso nunca. Este erro foi tão grande que só mesmo dissertando-o conseguirei explicá-lo: amigo, trai tua confiança.”. Contou-me os detalhes mais sórdidos. Acho que pensou que eu não me importaria. Entenderia que vocês estavam apaixonados, que era algo além do controle de vocês. Devo admitir que tenho parte da culpa por ele pensar isso: fiquei completamente calado. Não proferi uma única ofensa, não o agredi uma única vez. Não lhe toquei em um único fio de cabelo. Só sugeri que deixasse meu aposento e não mais voltasse, nunca mais. Dei certa ênfase ao nunca, espero que ele tenha percebido. Ah, esse inseto está de novo no seu rosto. Será outro, ou o mesmo? Muitos insetos vão te cercar agora, sabe. Acho que é melhor você se acostumar a eles, pode ser algo realmente necessário a partir de agora. Enfim. A polícia logo menos chegará. Cruzei com um vizinho enquanto entrava aqui, e creio que ele se assustou ao me ver segurando um cutelo. Apostaria todo o meu dinheiro que ele ligou para a polícia assim que saí do elevador. Mas não será preciso, sabe. Meu dinheiro já não é mais meu mesmo. Nada mais me pertence. Em fato, daqui a instantes nem minha vida pertencerá a mim. Opa, a sirene. Ah, se eu tivesse mesmo apostado, hein? Enfim. Preciso ir. Tome um último beijo de despedida. Despedida não, certo? Iremos ambos para o mesmo local em breve, imagino. Tu foste na frente, mas já chego. Sempre fui mais rápido que você mesmo.

Eu não sei explicar nem como funciona, mas acontece que vez ou outra vem a sua imagem, assim, na minha cabeça, e eu gosto, sabe, de te ter em mente o tempo todo, já nem sei mais há quanto tempo.

E nem sei se você é lá isso tudo que eu construí na minha mente, por que eu costumo fazer isso, sabe, criar um personagem na minha cabeça e anexá-lo a desconhecidos, no caso, tu, que tão linda assim se fez presente em minha mente tempo demais pra não ter uma história própria.

O problema é que ainda não aprendi a criar barreiras que me impeçam de me magoar quando descubro que a realidade em nada se assemelhava com minha criação, descubro que a pessoa, no caso, tu, não passava de um filme mudo ao qual adicionei meu próprio roteiro, e esses sucessivos embates com a realidade me destroem, me corroem e desiludem. É como um veneno que discretamente me arrebata e finaliza, uma pequena rachadura que, de tanto ser pressionada, torna-se uma enorme cratera.

A única conclusão que chego pensando nessas coisas é que, vê se tu me entende, saudáveis e felizes são os loucos, que nunca percebem que a realidade não é igual aos seus devaneios de insanidade.

Vivo no limiar da sanidade com a loucura, da dor com a pura serotonina. E não cabe mais nenhuma decepção no meu copo. Não transborda, por favor.

Cheiro

O tempo ta fechado e as pessoas seguem sendo estupidamente estúpidas, e essa estupidez, você sabe, me irrita, sempre me irritou e eu não sou lá de me irritar normalmente, sou bem calmo até, mas me irrita. E por descostume, talvez, não sei, essa irritação me machuca, me dói, e a dor acaba trazendo mais irritação.  Essas são as duas coisas que me irritam, dor e estupidez, também me irrito quando meu time perde, mas é uma irritação diferente, é mais volúvel. Talvez, não sei, vai saber, o que sei eu, além de que nada sei, não é? Mas talvez, veja bem, só talvez, eu esteja é sentindo a tua falta e de todo aquele aconchego que me viciava no teu calor, no teu cheiro, no sentir da tua pele junto à minha. Uma vez teu cheiro ficou impregnado na minha camisa, aquela do cogumelo, sabe? Então, não lavei ela por muito tempo, não usei também pra não gastar muito o cheiro. Correndo o risco de soar idiota – mais do que já estou, veja bem, – eu até a cheirava de vez em quando e lembrava do momento em que aquele cheiro passava pra ela, naquela festa em que nossos lábios selaram um contrato que vínhamos formulando a seis – seis? – seis meses e pouco, acho. Um selo meio xoxo, rápido até, ‘fico sem ar enquanto beijo’ você disse e eu não entendi ‘como assim? Beijo teus lábios, não teu nariz’ ‘não consigo’ tu disse, e achei que era uma desculpa pra não me beijar, mau hálito talvez? ‘beija ela’ disse um menino ‘ela não quer’ conclui, abaixando a cabeça ‘não?’ tu me contestou e ‘não?’ eu te contestei, e daí tu me beijou (rapidamente, pra poder respirar) e passou aquele cheiro pra minha camisa. Mas o cheiro acabou, que nem teu efeito sobre mim, ou, mais provavelmente, meu efeito sobre ti, já que foi tu que disse ‘vamos ser só amigos’ antes de eu responder ‘não dá, eu não consigo’. Tu é uma droga demasiada viciante para um uso ocasional e eu sou sedento por prazeres imediatos já que nunca me dei bem com os a longo prazo e, veja só, sem meus prazeres e caprichos acabo ficando irritado com coisas bobas, que sempre existiram e, apesar de parecerem mais evidentes ultimamente, sempre existirão – como, por exemplo, a estupidez estupidamente estúpida  das pessoas. O que eu preciso é de uma anestesia geral que me desligue do mundo e, quem sabe assim, talvez, me desligue de você. Por que teu cheiro, ah, esse teu bendito cheiro não sai da minha cabeça, mesmo depois de já ter saído da minha camisa há muito tempo.

Ciano

No segundo em que pusera os sapatos azuis ciano no salão todos pararam a olhá-la – e havia dois homens cuspindo fogo mais ao fundo. Estava radiante. Os cabelos castanhos caídos pelo vestido formavam caracóis nas pontas, e a pele macia como seda tinha uma leve camada de maquiagem, de praxe somente, pois não havia como torná-la ainda mais perfeita do que já era naturalmente. Singela, cumprimentou os conhecidos e recostou-se na parede onde algumas conhecidas conversavam sobre a menina-que-deu-pro-menino-hiper-feio-enquanto-estava-bêbada. Aos poucos, cada uma tinha a mão convidada para uma dança e em questão de minutos ficara sozinha. Não por ninguém querer convidá-la, mas sim por ninguém ter a coragem necessária. Quem seria aquele que convidaria uma rainha para dançar perante todo o salão nobre e expor-se-ia à inconveniência dos passos em falso, dos erros na mudança de ritmo, das trocas de pés demasiado rápidas ou de uma falta de equilíbrio? Era mais cômodo convidar uma prima de segundo grau, ou uma chegada com a qual os erros passariam em branco para qualquer um que não os próprios a dançar. Até que, do fundo do salão, não o menino mais bonito, mais rico ou, muito menos, mais popular, fez-se olhar. É capaz de ninguém ter notado sua presença ali até então. Escondido sob cabelos escorridos, estavam os olhos – grande pérolas castanhas, foi-se notar depois. Com uma calça skinny gasta e o casaco de couro negro cobrindo a camisa social negra, aproximou-se discretamente da menina. Fosse ele por ser ele, ou fosse pela falta de importância da circunstância, poucos notaram que o menino pedira sua mão para uma dança. Tocava Bon Jovi, Never Say Goodbye, e todos estavam abraçados. Enquanto a voz embargada de John ecoava we dance so close, we dance so slow por todo o salão, a rainha aceitara o convite do coringa de dar-lhe o prazer de uma dança, e ambos tornavam-se a atração principal dos olhos atentos e discriminados. Nenhum sabia dançar, mas se completavam da forma mais inesperada possível e faziam uma apresentação impecável, envoltos em brumas e holofotes brilhantes. Um pé em falso aqui era compensado por um sorriso tímido ali, e ao ser girada com toda a formosura que fora possível, a multidão que os observava incessantemente rendeu-se às palmas que lhes ardiam as mãos. A dança fora terminada com uma troca de olhares de tamanho impacto e demora que sinalava, ali mesmo, que ambos eram muito mais do que desconhecidos coincidentemente no mesmo recinto. Deu-a um beijo à mão e retirou-se da pista de dança em direção ao portão de saída. Enquanto descia a escadaria de mármore, a menina corria ao primeiro degrau e lhe perguntara aonde ia. “Pra casa”, respondeu. “Me leva contigo”, pediu. “Desculpe, não posso”. “Podemos”, disse enfática, se aproximando dele, que parara no sétimo degrau. “Queria eu, mas não, não podemos. Não por mim, não por ti, mas por ambos. Neste mundo não há a possibilidade de eu como eu e um tu como tu ficarem juntos e transformarmo-nos em nós, por mais que pareçamos feitos para isso”, disse, dando-a as costas e saindo, embora seu coração tivesse ficado lá dentro, nas mãos dela, junto ao vestido ciano.