Numa dessas memórias aleatórias que estupram nossa mente vez ou outra lembrei de um dia muito, muito distante, daqueles tempos tão distantes em que  você lembra deles até meio escuros, como se tivesse sempre alguma luz queimada ou nublado, e sempre tem alguma professora escrota. Não que todas as professoras em geral fossem escrotas quando eu era criança, mas todas as minhas eram. Lembro um dia que, por algum motivo, alguma professora escrota precisara faltar a aula e uma psicóloga do colégio a substituiu – colégio pequeno tem essas coisas.

Minha imagem de psicólogos àquela época era clara: pessoas que sempre mimizam sobre como deve ser a criação de crianças. Apesar de serem em suma e perceptivelmente apenas uns mimizentos, aquela psicóloga em especial era legal. E ela não era nem bonita pra eu achar isso, era bem feia até, e muito menos era “legal” no sentido descolado da palavra, ela se vestia com umas roupas xadrez ou uns terninhos coloridos e tinha sempre um cabelo muito curto. Ela era legal por que ria o tempo inteiro. Se alguém ri tanto, é por que deve ter muita graça pra compartilhar contigo. Do bom dia ao boa noite aquela mulher tava rindo. Eu juro ter passado muitos instantes me perguntando se ela não sentia alguma dor ou cãibra na bochecha.

E daí teve esse dia em que ela foi substituir a professora e, por algum motivo nesse universo, ela decidiu que era apta o suficiente pra dar aula sobre qualquer coisa que não fosse psicologia. “Ora bolas, minha senhora, eu tenho por volta de 4 ou 5 anos”, eu pensei algo parecido, “e você acha que sabe mais do que eu sobre alguma matéria que eu estudo há 4 ou 5 anos? Você nem professora é, mulher”. Ela então, com aquele sorriso afoitamente constante, ajeitou seu casaquinho verde-escuro – não tenho certeza se era verde escuro, mas é essa a imagem que eu tenho dela no instante -, pegou um giz e começou a vomitar regras da gramática no quadro. Possivelmente o alfabeto. “Esta mulher está dizendo um bando de asneiras”, pensei, “não copiarei nada disso aí”.

Pouco tempo depois de terminar de escrever, a mulher virou-se para a turma com aquele sorriso beirando o doentio e veio diretamente ao paradeiro de meu assento. “Guilherme”, ela disse com um sorriso complacente mas que já estava ali naquela cara a tanto tempo que chegava a ser ofensivo. “Eu”, respondi com minha voz fina e afeminada de 4 ou 5 anos. “Por que você não está copiando?”. “Desgraçada, me pegou”, pensei pouco antes de começar a esboçar formas de escapar do purgatório social que me acometeria se ela descobrisse meu despeito. “Já terminei de copiar, tia”, o tia soou meio desnecessário, mas eu precisava ser adorável. “Então deixe-me ver”. “Esta pilantra não é boba” uma das vozes que eu ouvia naquele tempo me soara ao pé do ouvido. Abri desesperado meu caderno para ganhar algum tempo, e comecei a folheá-lo sem rumo. “Não lembro onde tá” disse cinicamente quando folhear o caderno – daqueles que ainda eram presos com grampos e não argolas, lembram? – começou a ser constrangedor.

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“Você não copiou, não é, Guilherme?” ela respondeu, escondendo o sorriso unicamente durante o tempo em que proferia a frase. Nesse instante, um rosto passivo, quase inexpressivo acometeu-lhe o rosto. Não havia raiva, ou ódio, ou repreensão, apenas não havia um sorriso também.

 Por um instante, percebi que eu era uma criança de 4 ou 5 anos e agi como tal – uma culpa absurda recaiu sobre minhas costas e eu precisei admitir: “não”. Ela apenas fez uma cara de repreensão, como que torcendo uma das bochechas e cerrando a sobrancelha ao som de um “tsc, tsc”, abriu meu caderno e apenas me mandou copiar de uma vez por todas.

“Maldita mulher”, pensei com meus botões enquanto ela voltava para o quadro “Me colocou em calças curtas”. Nunca mais respeitei as autoridades daquele colégio. Certamente eles também eram apenas marionetes daquele sorriso manipulativo.

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