Ciano

No segundo em que pusera os sapatos azuis ciano no salão todos pararam a olhá-la – e havia dois homens cuspindo fogo mais ao fundo. Estava radiante. Os cabelos castanhos caídos pelo vestido formavam caracóis nas pontas, e a pele macia como seda tinha uma leve camada de maquiagem, de praxe somente, pois não havia como torná-la ainda mais perfeita do que já era naturalmente. Singela, cumprimentou os conhecidos e recostou-se na parede onde algumas conhecidas conversavam sobre a menina-que-deu-pro-menino-hiper-feio-enquanto-estava-bêbada. Aos poucos, cada uma tinha a mão convidada para uma dança e em questão de minutos ficara sozinha. Não por ninguém querer convidá-la, mas sim por ninguém ter a coragem necessária. Quem seria aquele que convidaria uma rainha para dançar perante todo o salão nobre e expor-se-ia à inconveniência dos passos em falso, dos erros na mudança de ritmo, das trocas de pés demasiado rápidas ou de uma falta de equilíbrio? Era mais cômodo convidar uma prima de segundo grau, ou uma chegada com a qual os erros passariam em branco para qualquer um que não os próprios a dançar. Até que, do fundo do salão, não o menino mais bonito, mais rico ou, muito menos, mais popular, fez-se olhar. É capaz de ninguém ter notado sua presença ali até então. Escondido sob cabelos escorridos, estavam os olhos – grande pérolas castanhas, foi-se notar depois. Com uma calça skinny gasta e o casaco de couro negro cobrindo a camisa social negra, aproximou-se discretamente da menina. Fosse ele por ser ele, ou fosse pela falta de importância da circunstância, poucos notaram que o menino pedira sua mão para uma dança. Tocava Bon Jovi, Never Say Goodbye, e todos estavam abraçados. Enquanto a voz embargada de John ecoava we dance so close, we dance so slow por todo o salão, a rainha aceitara o convite do coringa de dar-lhe o prazer de uma dança, e ambos tornavam-se a atração principal dos olhos atentos e discriminados. Nenhum sabia dançar, mas se completavam da forma mais inesperada possível e faziam uma apresentação impecável, envoltos em brumas e holofotes brilhantes. Um pé em falso aqui era compensado por um sorriso tímido ali, e ao ser girada com toda a formosura que fora possível, a multidão que os observava incessantemente rendeu-se às palmas que lhes ardiam as mãos. A dança fora terminada com uma troca de olhares de tamanho impacto e demora que sinalava, ali mesmo, que ambos eram muito mais do que desconhecidos coincidentemente no mesmo recinto. Deu-a um beijo à mão e retirou-se da pista de dança em direção ao portão de saída. Enquanto descia a escadaria de mármore, a menina corria ao primeiro degrau e lhe perguntara aonde ia. “Pra casa”, respondeu. “Me leva contigo”, pediu. “Desculpe, não posso”. “Podemos”, disse enfática, se aproximando dele, que parara no sétimo degrau. “Queria eu, mas não, não podemos. Não por mim, não por ti, mas por ambos. Neste mundo não há a possibilidade de eu como eu e um tu como tu ficarem juntos e transformarmo-nos em nós, por mais que pareçamos feitos para isso”, disse, dando-a as costas e saindo, embora seu coração tivesse ficado lá dentro, nas mãos dela, junto ao vestido ciano.

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