O que veio primeiro: o perfeito ou o imperfeito? A imediata constatação de um automaticamente faz o outro existir também. Se existe algo perfeito, é por que existe algo imperfeito, caso contrário não faria o menor sentido classificar as coisas assim, afinal, tudo seria só perfeito ou só imperfeito. Isso é lógico. O problema mesmo é que, pela lógica, não podemos concluir qual veio primeiro, qual impulso eletrônico fez com que o primeiro neurônio do primeiro homem alcançasse tais conceitos. Aqui não podemos mais usar a lógica, mas fico satisfeito com a suposição – o conceito de perfeição certamente se originou da mente de um apaixonado. Isso é ilógico, mas é palpável. Ele podia ser um cara normal, olhando pra uma moça como eu olho pra ela, e pensando consigo mesmo – ah! Quem me dera tu fosse perfeita. Mas perfeita mesmo só será quando perceber que nós não fomos feitos para não estarmos juntos e cada instante em que insistimos nisso é um passo pra trás. O imperfeito nos cerca nesse instante. Mas ele é imperfeito e, portanto, deve se cansar alguma hora.

Aí a gente conversa.

Acho que o maior problema da minha vida é que eu tenho uma tendência realmente grande a ser a pessoa errada na hora errada. E isso em si não é lá a pior parte – ok, é bem ruim – mas o pior mesmo é o fato de que, de vez em quando, eu sou a pessoa certa. Mas na hora errada.

Por ond(z)e andares.

O fato de você estar com ele me fez desenvolver um autocontrole que nem eu sabia que existia, sabe? Digo, não é por que eu não falava mais com você que eu não pensava mais em você também, muito pelo contrário, nunca pensei tanto nem por tanto tempo, sendo você a primeira coisa que pensava e, convenhamos, penso, ao acordar e a última antes de ir dormir também. O problema é justamente esse, pensar em ti, isso nunca me fez bem, mas pelo menos não fazia mal, diferente de agora que todos os pensamentos são interrompidos pela imagem de tu junto a ele, e isso eu não posso suportar, realmente não posso, mesmo que eu aparente estar tão bem o tempo inteiro. Quer dizer, aparentava, né, pois parece que de fato ninguém consegue encenar um personagem o tempo todo e meu verdadeiro eu já não se aguentava mais dentro desta máscara. Não que tu se importe, eu nunca esperei nada de ti mesmo – até por que, se esperasse, que decepção eu teria tido, ein? Ei, ei, fica calma, por favor, não há mais motivos para ficar nervosa agora, já está tudo feito. Ta ventando bastante aqui hoje, não é mesmo? Ventos são bons, eles dão uma sensação de liberdade e tal. Viu? Estou até mudando um pouco de assunto pra mostrar que não há ressentimentos – apesar de ambos sabermos que há. Ah, você tem medo de altura, né? Que pena, então. Precisava ser aqui mesmo. Mas, ein, saiba que não lhes desejo nada de ruim, quero que o amor verdadeiro triunfe! Entendo que ele sempre foi o personagem principal e o romance comigo era apenas uma estrada paralela que tu percorria quando as demais estavam engarrafadas. Mas, é certo, também não desejo absolutamente nada de bom, que se fodam vocês dois. Só o que eu queria e, infelizmente, tenho absoluta certeza de que não acontecerá, é quando o romance começar a ruir, tu se perguntar se não teria sido melhor ter me escolhido. Por que ele vai ruir, isto é fato. Mas o que eu realmente queria era te deixar essa dúvida. Mas vá lá – tu não se importa. E eu também queria que tu soubesse que nada disso fez com que tu deixasse de ser perfeita e, caramba, nada disso fez com que eu te quisesse menos. Afinal, é por causa disso que estamos aqui, não é? Por eu te querer tanto e, dentre toda a tua perfeição, existir um defeito tão latente: tu não me querer de volta. Tu não se importar. Tu nunca se importou mesmo, né? Não entendo por que você agora desandou a chorar. Está chorando por quê? É uma pena que tenhamos que acabar nessa situação, eu realmente alimentava muitas esperanças com você. É realmente uma pena. Veja bem, não é sempre que alimento esperanças, sou um eterno pessimista, você sabe. Também é com um certo pesar que devo lhe informar que desse parapeito só há uma saída – e não é pela porta. Não finja se desesperar, eu sei que isso não é nada demais pra você. Passarão dias e a tua memória de mim se extinguirá tão rápido quanto o teu perfume nos meus lençóis. Eu sei disso, você sabe disso. Eu não sou nada pra você, tu não se importa, nunca se importou, nem vai se importar quando eu chegar lá embaixo. Mas eu estou fazendo isso por mim, sabe? Por muito tempo pensei em fazer isso apenas para te afetar de alguma forma, mas agora vejo que na realidade eu estou fazendo isso por mim, que é o melhor pra mim mesmo. Já desisti de te afetar. É bem capaz de eu me arrepender no meio do caminho. Mas vá lá, eu não tenho nada a perder agora que você não é mais minha.

– Esse texto fez um ano ontem.

uma carta ao passado.

Eu queria agradecer. Vocês me proveram uma memória pra que eu brincasse todas as vezes em que estivesse sozinho, como se o rosto de vocês fosse de lego e eu os montasse e desmontasse como melhor me aprouvesse esse tempo todo. Você, caramba, eu gostei demais de você. Eu acho que nunca vou gostar tanto de ninguém, e olha que eu digo isso depois de quase quatro anos. Você me traiu, mas tudo bem, sabe, você me ensinou que eu definitivamente não posso confiar em ninguém, nem na pessoa com esse sorriso bobo tão anormalmente adorável e essa dificuldade de respirar enquanto beija que eu reproduzi diversas vezes na minha memória, como um cinema cuja tela foram minhas pálpebras e público sempre aplaudiu de pé.

E você… bem, você me trocou. Olha, devo dizer que você me machucou um bucado. Eu sempre fui desses que se entristece mais com o desperdício do que podia ter sido do que com a decepção do que foi. Mas você flutuou bem sobre as entrelinhas, omitiu o certo e me fez ficar contra mim mesmo logo após me trocar por uma pessoa que, veja bem, te faz tão feliz! Será que eu também faria? De fato, no seu caso acho que eu deveria ficar contente de não ter sido o que poderia, afinal, ter sido o que de fato foi parece melhor para ambos. Mas, caramba, aquele teu jeito de me pedir as coisas nunca, e eu tô falando sério, nunca vai se apagar da minha mente, mesmo que fosse só pra te fazer companhia enquanto você ia comprar um chocolate.

E você, poxa, você quem sacaneou fui eu. Desculpa por isso. Eu juro que me arrependi, mas você, caramba, você não conseguia mesmo perdoar ninguém, né? Se tem uma coisa que eu tenho saudade era daquele teu olhar de quem tava puta quando eu te provocava, seguido por aquele drama clássico até eu declarar todo o meu amor. Eu exagerava, você sabe, mas não mentia. Eu lembro que uma vez nos abraçamos e beijamos com tanta certeza que até a passagem do tempo pareceu duvidosa, e era de uma brasa tão ardente quanto a ponta de um cigarro recém aceso, mas se apagou mais rápido que uma fogueira na tempestade.

Eu não consegui esquecer vocês e não vai ser agora que vou conseguir. Nem tudo pro mal, nem tudo pro bem, apenas tudo devidamente armazenado no subconsciente.

Ah! Temos, por fim, você. Mas você eu descubro daqui a um tempo.

Eu topo se você topar.

É sério. Eu tô tentando integrar essa capacidade de ver tudo de um jeito mais simples à minha personalidade, e tô tendo dificuldades, claro, dificuldade pra caralho, mas se tem uma coisa que eu sinto que pode ser simples é o que a gente constrói entre a gente, entre nós pessoas, e se a gente pudesse só dizer o que a gente pensa sem se importar com mais nada? Tudo o que a gente pensa passa por uma série de filtros até se tornar o que a gente diz, filtros ligados a todo tipo de restrições e censuras de nós mesmos para que não ofendamos ou não nos exponhamos para ninguém, mas caramba, se a gente não tem culpa de pensar, por que tanta gente nos culpa por dizer? Qual é a diferença?, você pode me perguntar, ela não existe, eu vou te responder, e se você pensa, se eu penso, se todo mundo pensa, por que não dizer? Caramba, eu quero a verdade escrachada, o drama puro, o triste, o feliz, o bruto, feio e ríspido, por vezes inócuo, eu quero o que não é dito mas é dizível, não esse discurso mascarado que a gente veste pra sair todo dia e fingir que temos esse sorriso o tempo todo. Eu topo se você topar. Não é a primeira pessoa que eu sugiro isso – e decerto não será a última – mas vai que dá certo. É sempre uma viagem. Às vezes uma longa, às vezes como uma ida ao McDonalds.