Sentado no parapeito da janela e tentando encontrar a razão pela qual eu me fodo com uma frequência tão grande no que diz respeito a relacionamentos em geral. Em tudo o que é relacionado a interação com outros seres humanos sou um fracasso absoluto. Foi olhando pro morro verde e limpo no horizonte que criei a primeira teoria – eu demonstro demais. Se eu gosto, eu demonstro. Se eu gosto muito, demonstro ainda mais. Nem que seja chamando pra sair individualmente, ou dando um abraço apertado de vez em quando, ou, caralho, dizendo “eu gosto à beça de você, cara”, mas eu gosto demais de me sentir querido e faz muito sentido, na minha cabeça, dar esse prazer às pessoas que eu gosto também.

Mas é isso que me fode, pensei. Eu demonstro demais, as pessoas demonstram de menos. De repente, eu percebo que eu gosto muito mais das pessoas do que elas de mim. E quando bate essa percepção, a sombra que diz “isso vai dar merda a qualquer instante” começa a sussurrar no canto do meu ouvido. Até findar a relação é questão de tempo. Quantos amigos, mulheres e semidesconhecidos que por alguma razão eu gostava não seguiram por essa estrada? Decerto não foram poucos.

“É isso”, pensei. “Eu só preciso demonstrar menos”. Bati as cinzas, observei o sol se pondo atrás do meu prédio e refletindo aquele misto de sombras com o verde do morro satisfeito. O rádio, que tocava um blues, começou a tocar um cantor italiano que me traz à mente tudo o que eu não queria que alguém me trouxesse, mas é tão bom que ouço da mesma forma. E quando a voz ecoou pelos meus ouvidos, a lembrança de diversos relacionamentos me estuprou a mente. A teoria fora pro lixo.

Mudei a posição na cadeira e voltei a encarar o horizonte. E todos os relacionamentos que eu perdi justamente por não demonstrar o quanto eu gostava da pessoa? Eu já havia chegado a essa conclusão de não demonstrar outrora e ela foi a ceifadora de diversos relacionamentos promissores. Eu não demonstrava, a pessoa não demonstrava, e supunha-se, então, que nada havia, de forma que passava a nada haver. Mas havia – da minha parte, pelo menos.

Agora me sentei intrigado. O céu já estava quase escuro. O morro não passava de uma sombra negra naquele céu roxo-alaranjado. O vento batia forte e levava com ele todas as minhas hipóteses e certezas. A mais pesada, no entanto, ficou. E ela dizia com todas as palavras: você não sabe lidar.

Existem pessoas que simplesmente não sabem lidar. Nem consigo mesmas, quiçá com outras pessoas. Que conclusão triste, pensei. Sentei aqui disposto a entender por que minha vida segue como o banco de passageiros no qual eu insisto em convidar transeuntes pra uma carona, mas eles rapidamente enjoam e pedem pra descer. E entendi! Mas não foi a conclusão mais reconfortante.

Pensando assim, prevejo uma vida solitária. Mas, na melhor das hipóteses, ainda encontro outros motoristas com o carro vazio dispostos a me fazer companhia. Acho improvável, mas não quero chegar a uma conclusão tão feia numa noite linda dessas.

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