Hair [1979]

A vida inteira disse que Hair era meu filme preferido mas nunca tive saco pra explicar as diversas fritações que já tive com ele. Tentarei expô-las todas aqui. Mas, antes de qualquer coisa, se você não viu esse filme, faça-o agora. Pelo amor de Deus, é um favor que você faz a si mesmo. Para facilitar, eis aí o link pra download do filme e da legenda (eu mesmo upei, não liguem pro nome estranho, é do legendas.tv), e aqui tem o link pra você ir vendo as músicas pelo youtube, o que não é láaa ver o filme, mas já é alguma coisa.

A primeira cena do filme é simbólica – os hippies queimando suas identidades. Ao se tornarem indigentes perante o Estado, eles eram livres. Deixavam de ser um número para o governo e passavam a ser humanos – ou, como vou mostrar, passavam a ser o pecado.

A primeira música é um hino de repúdio – ao celebrar a Era de Aquarius, a letra explica todas as características que a sociedade passará a ter daquele momento em diante. Se ela explica as características que a sociedade terá, é por que a sociedade ainda não as tem. Você não diria, por exemplo, que de agora em diante uma pessoa será “compreensiva” se ela já for compreensiva, não é?

Dizendo, portanto, que dali em diante teríamos amor, compreensão, solidariedade e harmonia, critica-se todo o passado até o presente momento dizendo que esse tempo não os tinha.

A segunda música já começa a comprovar o que eu havia dito – os hippies são a representação do Pecado nesse filme. Ao cantarem sobre pederastia, sodomia e sexo oral, eles estão convidando as mulheres que, por representarem a alta classe americana seriam as “corretas”, ao pecado.

Donna é o primeiro momento que me faz crer que a intenção dos diretores era fazer uma versão metafórica hippie da bíblia. É uma música que conta a história de uma garota pura e virgem de 16 anos.

Um hippie, a pessoa que prega sexo livre, liberdade, pecados e heresia, está procurando uma virgem pura “myDonna”, Madonna, um nome de origem hebraica – coincidência? -, que poderia muito bem ser uma variação etimológica de Maria numa determinada tradução.

Não é a toa que a música que narra a busca do Pecado – o hippie… – por Maria – a Pura! – surge pra introduzir na história o homem que em instantes eu explicarei ter uma estranha tendência a querer ser Jesus.

“she got busted for her beauty” oh, coitada! Foi julgada sendo inocente. Poor Maria. Como fora a mãe de Jesus julgada por estar grávida, mas, no fundo, no fundo, era virgem.

Depois temos “I believe in God and I believe that God believes in Claude – that’s me”. Deus acredita nele pra cumprir sua missão na Terra! Por que todos nós viemos pra cá para ter uma missão, não é mesmo? Coisa de Calvino essa história aí…

Em seguida vem a oposição de “Ain’t Got No” e “I Got Life”, que, em primeiro lugar, são eles admitindo todas as coisas que eles não tem, todas coisas materiais, desde maconha até sapatos, e em seguida eles admitem que as posses deles são de outra instância – eles valorizam a vida, o sangue, o corpo, os momentos.*

*Acho bacana olhar pela perspectiva de que, para os hippies, as ideias orientais de meditação e alma eram muito claras. Uma das premissas da meditação é o entendimento de que a maior parte dos nossos pensamentos são relacionados ao passado ou ao futuro. Se estamos tristes é por algo que aconteceu ou acontecerá, se trabalhamos é para ganhar dinheiro futuramente, todas as nossas ações são norteadas por pensamentos em outros momentos, e invariavelmente esquecemos de pensar no presente. Quando paramos e prestamos atenção na única coisa que é presente e constante, que consegue ser independente do tempo, é o nosso corpo.

A piadinha de Initials, aquela primeira música que eles cantam ao chegarem no grande encontro em que tomam doce, é com as iniciais de LBJ, Lydon B. Johnson, presidente dos EUA, pegando o metrô (IRT – Interborough Rapid Transit Company, former operator of a portion of the New York City Subway system)  pra visitar o presidente Kennedy e, ora bolas, o encontra tomando doce!

E então vem uma das cenas mais interessantes e mais simbólicas do filme (e da vida) – o momento em que Claude toma LSD.

Ele se imagina casando por que ele é um homem correto, com todas as qualidades que um bom americano protestante deve ter, e por isso ele quer casar, ter uma família e filhos.

A necessidade de cumprir o conceito de correto que lhe fora ensinado a vida inteira – lembrando que ele vem do interior norte americano na década de 60, imagine a ideologia que não deve ter sido implantada na cabeça desse cara, principalmente em uma sociedade protestante como a americana* – é o mesmo sentimento que o leva a, por exemplo, aceitar a responsabilidade de ir pra guerra pelo país dele. É o correto, é o que um bom homem deve fazer.

*O que é uma ideia meio difícil de entender, mas a lógica filosófica do protestantismo é totalmente diferente da do catolicismo. Os colonizadores americanos eram ingleses que fugiam da ditadura anglicana de Henrique VIII por serem protestantes e aceitarem, por exemplo, as ideias que ditam que um homem bem sucedido não é um homem de bom coração, como no catolicismo, mas um homem rico e com família. Lembram da aula no ensino médio de Reforma Protestante em que as religiões eram usadas para fortalecer o status da burguesia em detrimento da monarquia? Os americanos foram colonizados por burgueses calvinistas que certamente influenciaram a doutrinação de pessoas como Claude.

Morrer pelo povo dele! Pela nação, pelo bem maior!

Basicamente a mesma premissa da morte de Jesus.

Hare krishna! Meu Deus, o homem toma doce e começa a ouvir mantras budistas. Essa cena é absolutamente espetacular.

Depois a gente pula um pouco por que eu já tô com sono e temos a música que toca em frente ao obelisco de Washington e, por algum motivo, ecoa pelos ouvidos do exército. Acho bacana perceber que o conceito de “gueto” no resto do mundo é totalmente diferente do Brasil – o “gueto” lá de fora é como são chamados os bairros de moradores de etnia minoritária, enquanto aqui é qualquer região de baixa renda, ou seja, a maioria. O que a música queria dizer com “256 vietcongues capturados / prisioneiros do gueto / peguem as armas e comecem a matar” acho que começa a fazer mais sentido sob essa perspectiva.

E então o grande tapa na cara. Na peça original, quem morria era, de fato, o Claude. Havia, então, a cena de seu velório e todos cantando ao redor. No filme, por outro lado, os diretores decidiram dar um tapa na cara de você, telespectador. Ao matar Berger, o hippie livre e pecador, você fica muito mais chocado e comovido do que se o Claude, o cara certinho e conservador, tivesse morrido.

Você se pega pensando “ah! Mas eu já tinha me acostumado com a ideia de que o Claude ia morrer, agora fiquei consternado (que é uma forma mais bonita de dizer “bolado”)”. Você se pega reproduzindo o discurso de que está acostumado com a ideia de que Jesus morreu para que você continuasse pecando.

E, na cena final, estão todos olhando com olhar de reprovação para…

Untitled-2

VOCÊ!

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