Esse texto é a prova de que eu consigo criar personagens totalmente diferentes de mim. Queria eu ser esse cara, mas parece que não…

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Não chega a ser engraçado o número de aleatoriedades que precisaram se unir de forma quase premeditada para que hoje estivéssemos nós dois aqui nesse banco de praça? A vida, afinal, o que é ela além de um número infindável de aleatoriedades, desde o homem que descobriu o fogo até o ônibus que eu peguei e que você estava hoje mais cedo? Você percebe que se tentássemos com muito afinco nos encontrarmos naquele ônibus, naquele horário, nesta tarde, provavelmente teríamos falhado vexaminosamente? É justamente por isso que eu não consigo acreditar em destino, a vida é demasiadamente aleatória para que haja algo tão fixo e premeditado, algo tão invulneravelmente imutável, sabe, e é por isso  também que eu nunca aceitei bem o nosso término. Não, por favor, não vá embora, vamos conversar só um pouco, sinceridade, a gente gostava tanto dela e hoje em dia nossas palavras parecem tão maquiadas, tão teatralizadas! Eu não quero discutir relação, eu nunca gostei nem gostarei disso, até por que nós não temos mais relação nenhuma, você se tornou apenas um rosto conhecido dentro de um ônibus que me fez debater mentalmente se eu devia ou não fingir não ter visto. A palavra que me fez tomar a decisão foi justamente fingir, eu lembrei do nosso pacto de sinceridade, que você quebrou, eu não, e se a quebra por parte de só metade dos envolvidos já nos trouxe até esse banco melancólico de praça, imagina se eu também o tivesse quebrado, onde é que a gente não estaria? Você precisa entender que não é só por que eu não aceitei nosso término. que eu quero você de volta, sabe, por que não, eu não quero, na verdade eu tenho um problema com a palavra término. por que eu acredito que ela deveria invariavelmente vir acompanhada de um ponto final e, quando ela sai da sua boca, eu sempre ouço as reticências que você coloca em homenagem ao tal do “destino”. Não, não há nada que o destino possa fazer que nos uma novamente, nada vai ser escrito após as reticências, a menos que você queira repetir a palavra término. pra dar ênfase. Eu, pessoalmente, acho desnecessário, pois a felicidade da nossa história foi muito mais avassaladora e gritante que o término. e nem por isso nós a dissemos três, quatro vezes, então, por favor, tira essas reticências da tua boca e no lugar delas coloca um adeus.

Dezenove anos
passando na brisa
sorrindo pro vento
chorando do tento
que nunca vingou.

Feliz que o tempo
pra longe de ti
a mim com vento levou.

Só resta o lamento
que um dia pretendo
sanar por todo
e quem nesse tempo
não tem um lamento
que não seja tolo?

Só sei que vou indo
sozinho sorrindo
voando na brisa
do dia feliz
que sempre reprisa.

Eu vejo que por trás dessa janela tem um mundo que muito habilmente pode destruir todos os meus conceitos de felicidade, e que pra dentro dos meus olhos tem um mundo capaz de reconstruí-los do zero. Sou condicionado a crer que a felicidade está nas pessoas e coisas, mas tenho convicção de que ela existe só em mim. É como se eu tivesse um saco de balas no bolso e pedisse uma de outra pessoa, que por vezes flerta, as vezes até finge, mas raramente me dá. O motivo eu juro que não é ganância – eu simplesmente não consigo abrir o bolso pra pegar meu saco.

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Poucas músicas dizem tanto em tão pouco.

Essa música é meio camaleão. A primeira vez que a ouvi, lembrei do meu irmão, sei lá por que. Acho que o jeito como o Tiziano canta o refrão me lembra o jeito abobalhado que meu irmão tem quando tá feliz, alongando os últimos fonemas e falando cantado.

Aí eu li a letra e associei diretamente à minha mãe. Essa música foi feita pra minha mãe. Minha mãe faz parte daquele grupo de pessoas que eu amo tão irremediavelmente que nem me dou ao trabalho de dizer a ela que a amo. Dizer que se ama uma mãe é quase uma ofensa – já dissemos que amamos tanta gente que não merecia! Agrupá-las com o mesmo verbo que você profere à sua mãe é um desmerecimento sem precedentes.

E aí vem uma música linda dessas que, por mais que vez ou outra cite amor, no seu decorrer consegue transmitir aquele amor verdadeiro que eu sinto pelos meus pais e pelo meu irmão. Mais do que a todos, à minha mãe. Essa música era dela.

Estava satisfeito com isso.

Mas eis que surge uma pessoa que pula de cabeça na minha vida, bate no peito e diz – essa música agora é minha. Ela exige, insiste, e por mais que eu me esforce, ela consegue. E eu percebo, por fim, que essa música não foi feita pra uma pessoa só. É tanto amor e tanta sinceridade que pode ser dividida. Um trecho pra cada uma, um sentimento diferente pra uma pessoa diferente, tudo transitando entre uma frase e outra. Longe, é claro, de dividirem a mesma importância – a primazia da minha mãe, por mais infantil e inocente que isso possa parecer, ainda supera todas as pessoas desse mundo. Juntas.

A parte mais sincera, mais verdadeira, mais pura, é pra minha mãe. A parte mais bonita, apaixonante, encantadora… essa fica pra quem quiser.

Pra ela, por enquanto.
E questo fa paura
Tanta paura!

Sentado no parapeito da janela e tentando encontrar a razão pela qual eu me fodo com uma frequência tão grande no que diz respeito a relacionamentos em geral. Em tudo o que é relacionado a interação com outros seres humanos sou um fracasso absoluto. Foi olhando pro morro verde e limpo no horizonte que criei a primeira teoria – eu demonstro demais. Se eu gosto, eu demonstro. Se eu gosto muito, demonstro ainda mais. Nem que seja chamando pra sair individualmente, ou dando um abraço apertado de vez em quando, ou, caralho, dizendo “eu gosto à beça de você, cara”, mas eu gosto demais de me sentir querido e faz muito sentido, na minha cabeça, dar esse prazer às pessoas que eu gosto também.

Mas é isso que me fode, pensei. Eu demonstro demais, as pessoas demonstram de menos. De repente, eu percebo que eu gosto muito mais das pessoas do que elas de mim. E quando bate essa percepção, a sombra que diz “isso vai dar merda a qualquer instante” começa a sussurrar no canto do meu ouvido. Até findar a relação é questão de tempo. Quantos amigos, mulheres e semidesconhecidos que por alguma razão eu gostava não seguiram por essa estrada? Decerto não foram poucos.

“É isso”, pensei. “Eu só preciso demonstrar menos”. Bati as cinzas, observei o sol se pondo atrás do meu prédio e refletindo aquele misto de sombras com o verde do morro satisfeito. O rádio, que tocava um blues, começou a tocar um cantor italiano que me traz à mente tudo o que eu não queria que alguém me trouxesse, mas é tão bom que ouço da mesma forma. E quando a voz ecoou pelos meus ouvidos, a lembrança de diversos relacionamentos me estuprou a mente. A teoria fora pro lixo.

Mudei a posição na cadeira e voltei a encarar o horizonte. E todos os relacionamentos que eu perdi justamente por não demonstrar o quanto eu gostava da pessoa? Eu já havia chegado a essa conclusão de não demonstrar outrora e ela foi a ceifadora de diversos relacionamentos promissores. Eu não demonstrava, a pessoa não demonstrava, e supunha-se, então, que nada havia, de forma que passava a nada haver. Mas havia – da minha parte, pelo menos.

Agora me sentei intrigado. O céu já estava quase escuro. O morro não passava de uma sombra negra naquele céu roxo-alaranjado. O vento batia forte e levava com ele todas as minhas hipóteses e certezas. A mais pesada, no entanto, ficou. E ela dizia com todas as palavras: você não sabe lidar.

Existem pessoas que simplesmente não sabem lidar. Nem consigo mesmas, quiçá com outras pessoas. Que conclusão triste, pensei. Sentei aqui disposto a entender por que minha vida segue como o banco de passageiros no qual eu insisto em convidar transeuntes pra uma carona, mas eles rapidamente enjoam e pedem pra descer. E entendi! Mas não foi a conclusão mais reconfortante.

Pensando assim, prevejo uma vida solitária. Mas, na melhor das hipóteses, ainda encontro outros motoristas com o carro vazio dispostos a me fazer companhia. Acho improvável, mas não quero chegar a uma conclusão tão feia numa noite linda dessas.

É meio lamentável quando uma pessoa tenta evitar uma merda e acaba fazendo mais merdas sem nem perceber. Você percebe os passos inseguros e tem vontade de dar-lhe um tapa na cara e dizer “para com isso, porra, você só tá piorando tudo”, mas a merda emana um cheiro tão nauseante que a pessoa fica cega, letárgica. Maldita impotência – ver acontecer e não poder fazer nada.

“Eu tenho uma ferida de cada lugar
em que deixei guardada a solidão.”

Cometer erros e sofrer por eles devia ser um alento. A gente devia aprender com eles, e aprender não a não repeti-los – isso talvez seja bom, mas não é o principal -, mas sim a não se entristecer quando eles ocorrerem novamente – afinal, é passageiro, tal como o fora da primeira vez.

Por que não é um alento então? Por que – ora bolas – a única coisa que eles realmente fazem é nos mostrar que estamos caindo novamente no mesmo erro e sofrer por antecipação, além de já sofrer pelo que acontecerá.

Uma vida de erros é uma vida de sofrimento antecipado.

E puta merda – não é que eu erro pra caralho?

*Eu não sei usar os por quês por que porque, que professor de português eu fui?!